E se o problema não estiver apenas nas telas?

Mais do que controlar o tempo de tela, precisamos entender por que as crianças preferem o mundo digital e como reconstruir espaços reais de convivência

Mas a tela ocupou um espaço que já estava vazio /Aleksandarlittlewolf/Magnific

Estamos preocupados com crianças que não saem das telas. Talvez devêssemos começar perguntando que mundo construímos quando elas saem delas.

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Discutimos tempo de tela, dependência digital, redes sociais e jogos. Criamos controles parentais, limites de horário, classificações etárias. Dizemos aos nossos filhos: “desliga isso e vai fazer outra coisa”. Mas fazer o quê? E onde?

A infância não migrou para as telas por acaso. As cidades ficaram mais violentas. As casas diminuíram. A rua passou a representar risco. Pais e mães trabalham jornadas extensas, as redes de apoio diminuíram e até a infância entrou na lógica da produtividade.

Para quem pode pagar, preenchemos a agenda: escola, inglês, esporte, música, cursos. Para quem não pode, muitas vezes sobra uma casa pequena, poucas possibilidades de lazer e uma tela capaz de oferecer um universo inteiro sem atravessar a porta.

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Talvez exista uma desigualdade sobre a qual falamos pouco: até o direito de viver longe das telas começa a depender das condições que uma criança recebeu para viver fora delas. E então culpamos a tecnologia. É confortável fazer isso porque objetos não nos obrigam a olhar para a sociedade que construímos.

Mas a tela ocupou um espaço que já estava vazio. Ali, crianças e adolescentes encontraram entretenimento, amigos, informação, reconhecimento e pertencimento. Encontraram também riscos que demoramos demais para compreender. E é aqui que o Setembro Amarelo atravessa essa conversa.

Nos Estados Unidos, a Meta concordou recentemente em pagar até US$ 18 bilhões para encerrar processos envolvendo acusações sobre os efeitos de suas plataformas em crianças e adolescentes. No Brasil, a morte de uma menina de 13 anos durante uma transmissão pelo Discord levou à investigação de comunidades virtuais relacionadas à coerção psicológica, automutilação e incentivo ao suicídio.

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São acontecimentos diferentes, mas deixam uma pergunta em comum: O que acontece quando parte da formação emocional de uma geração passa a acontecer em territórios que os adultos quase não conhecem? Seria irresponsável afirmar que uma rede social, isoladamente, provoca um suicídio.

O sofrimento psíquico é complexo demais para explicações simples. Mas seria igualmente irresponsável tratar o ambiente digital como neutro. Principalmente durante a adolescência. É justamente quando tentamos responder a uma das perguntas mais difíceis da existência (quem sou eu?) que essa geração encontra uma ferramenta capaz de responder outra, inúmeras vezes por dia: o que os outros pensam de mim? Aprovação vira número. Rejeição ganha audiência.

Comparação não termina quando a escola acaba. E a construção da identidade, que sempre dependeu do olhar do outro, agora acontece diante de uma plateia potencialmente infinita. Uma geração que aprendeu a navegar por plataformas antes mesmo de aprender a navegar pelas próprias emoções.

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Talvez neste Setembro Amarelo precisemos ir além da pergunta sobre quantas horas nossos filhos passam diante de uma tela. Precisamos perguntar o que eles encontram ali que não estão encontrando fora dela. As plataformas têm responsabilidade. Governos, escolas e famílias também. Mas transformar essa discussão em uma procura por culpados talvez seja apenas outra maneira de evitar o problema.

Porque retirar o celular de uma criança é relativamente simples. Difícil é reconstruir aquilo que deverá ocupar o espaço que ele deixou. Tempo. Segurança. Convivência. Pertencimento. Liberdade. Presença. Talvez proteger uma criança no mundo digital comece muito antes do primeiro controle parental. Começa quando construímos um mundo real para o qual ela também queira voltar.