A Perna Cabeluda arrombou as portas dos cinemas e ganhou o mundo, de carona com o já consagrado Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado pelo Golden Globe Boy: Wagner Moura.
Fui apresentado à Perna Cabeluda graças ao maioral Chico Science, que esse ano completa, no dia 13 de março, 60 anos de existência e saudade.
Ele cantou na música Banditismo por uma questão de classe:
“Galeguinho do Coque, não tinha medo, não tinha, não tinha medo da perna cabeluda!”
A música fazia referência a um folclórico bandido Pernambucano, que depois de se converter evangélico, em uma de suas passagens pela prisão, no meio dos anos 70, dizia que não tinha medo da Perna Cabeluda porque era cristão.
Mas, finalmente, caminhei pelas trilhas desta da Perna Cabeluda “in loco” no fim de 2025.
É muito legal “rosetar” pelo Recife Antigo e imaginar a atmosfera do lugar entre 1975 e 1976, anos em que a Perna Fantasma do Tiúma possuiu as páginas dos jornais, rádios e, claro, as rodas de conversa na Capital Pernambucana.
Dentre os primeiros relatos, está, também, um dos mais curiosos.
No caso reportado em dezembro de 1975, um homem procurou as autoridades policiais e a imprensa, após seu filho ter sido agredido dentro de casa por uma Perna, peluda e muito forte.
O acontecimento foi presenciado pela empregada doméstica que trabalhava na residência que, além de fazer um dos mais importantes retratos falados do membro endiabrado, também disse que a tal Perna Cabeluda xingava, gargalhava e se transformava em outras criaturas.
Outro relato que ocupou as páginas policiais foi a de que o chefe de uma família, deitado na cama de sua casa na companhia da esposa, escutou um barulho estranho embaixo da cama e, ao olhar sob seu colchão, levou uma “bicuda” da perna que subiu as paredes, depois de chutar tudo que encontrava-se em sua frente.
A Perna Cabeluda foi parar na boca de um tubarão alegórico no carnaval de Recife, em referência ao filme de Steven Spilberg, que fazia tremendo sucesso no início de 1976.
A perna cabeluda não era apenas uma criatura mitológica, segundo pesquisadores.
Ela, também, serviu para denunciar agressões e até mortes no período da Ditadura, que não poderiam ser reportadas como de autoria das forças de repressão.
Não descarto qualquer das possibilidades e nem aquela de que esse monstrengo – com a cara dos irreverentes encantos do Recife, trará com suas pernadas fortíssimas, nossa segunda estatueta.
Nosso realismo fantástico é muito mais dourado do que qualquer Oscar, mas seria muito legal ver a Perna Cabeluda enchendo de bicuda Hollywood.
Evoé!
