Vai para o inferno, sem escalas, quem esquecer dos 90 anos de existência do monstro sagrado José Mojica Marins! Senhoras e senhores… não existe coincidência no mundo sobrenatural.
Por isso, não há qualquer coincidência em cair em uma sexta-feira 13 os 90 anos de José Mojica Marins, pai do terror brasileiro e criador de um dos mais conhecidos personagens do gênero: Zé do Caixão.
O filho do Sr. Antônio e da Sra. Carmem, ainda em tenra idade, se apaixonou por livros e teatro de bonecos. Mas a oportunidade de viver com a família nos fundos do cinema em que seu pai foi projetista e gerente evocou uma paixão que se tornou traço de sua personalidade.
A paixão pela sétima arte, alimentada pelo acesso a filmes, despertou a vocação de Mojica, que, aos 12 anos, ganhou sua primeira câmera.
No início da fase adulta, fundou sua companhia cinematográfica e se estabeleceu na cena cinedramatúrgica, credenciado como autor, ator, dramaturgo, roteirista e diretor. Quis o destino que a esses ofícios se somassem as competências de apresentador e entrevistador.
Contudo, seus primeiros filmes não foram do gênero terror. O mestre passou por várias “escolas” cinematográficas.
Seu trabalho inaugural, que, a bem da verdade, nunca foi concluído, tem contornos religiosos, e sua primeira obra integral foi um filme de aventura chamado “A Sina do Aventureiro”.
A paixão pelo gênero terror foi coroada no ano de 1964, quando o Sr. Mojica desfilou seu tenebroso talento em “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”! O filme é a manjedoura infernal de seu parceiro, ou “encosto da vida”, Josefel Zanatas, mundialmente conhecido como… ZÉ DO CAIXÃO!
Pois é, o Zé do Caixão, personagem, tem um nome civil. O filme é de 1964, mas não darei spoiler. Quem não assistiu, assista!
De tempos em tempos, renovo minha admiração e singelas homenagens ao generoso Mestre, na condição de fã apaixonado.
Entendo que, para o grande público, é difícil não relacionar homem e obra, mais ainda quando o fruto dessa obra se desdobrou no personagem que descreve o arquétipo macabro mais célebre dessa terra repleta de fobias, chamada Brasil.
Mas o personagem Zé do Caixão não é só o protagonista de filmes que encarnou o profeta das maldições e praguejos do mundo. Sua primeira aparição foi em um sonho de Mojica, ou melhor, em um pesadelo do mestre dos mestres.
No famigerado pesadelo, José era arrastado pelo Zé em um cemitério. Zé do Caixão apareceu no pesadelo com sua capa preta, unhas compridas, cartola e gargalhava feito Zanatas, ou melhor, Satanás.
Em uma campa, Zé do Caixão ergueu a cabeça de José Mojica para mostrar-lhe a data de sua morte, já que aquela era sua própria sepultura.
José desperta do pesadelo desesperado e acorda sua família com seus gritos de pavor.
Ao amanhecer, seus familiares se socorreram de todas as lideranças religiosas da vizinhança. Mas ninguém conseguiu exorcizar o Zé do Caixão da genialidade do Sr. Mojica, que posicionou seu encosto/alter ego feito escudo contra seus medos. Acredito que, por José Mojica ter dado vida ao Zé do Caixão, o Zé do Caixão deu o Olimpo a José Mojica.
A sólida relação entre criatura e criador atravessou as telas dos cinemas brasileiros para conquistar o mundo, sendo rebatizado para a língua inglesa como “Coffin Joe”. O protagonista da franquia “Senhor dos Anéis”, Elijah Wood, está produzindo um filme retratando o personagem de Mojica, que deve se chamar “Zé do Caixão”.
Para fechar a tampa do caixão nesta sexta-feira 13 de rememoração dos 90 anos de existência do nosso Professor, e para sermos fiéis, é muito importante lembrar da total rejeição de Mojica à morte. Ele nunca gostou dela, por mais que isso possa parecer contraditório.
Segundo minha interpretação, talvez sua necessidade de tratar o tema estivesse exatamente no pulso de vida que a sensação de terminalidade nos traz.
Parece-me que ele era apaixonado pela vida, e qualquer homenagem que fizermos ao Generoso Professor, para ser feita adequadamente, deve ser feita ressaltando o ser humano, e não seu personagem.
Em seus 90 anos de existência, entendo ser fundamental diferenciar o criador de sua obra. Embora o personagem Zé do Caixão esteja em destaque nos oráculos do horror, ele jamais se sobreporá ao Sr. Mojica, que tem na íntegra de sua conformação o signo do filho, do pai, do avô, do amor, do mestre generoso e da majestade infinita de nossa cultura popular, que continua nos inspirando com sua “monstruosa” genialidade.
Sou, sem dúvida, um dos beneficiários do trabalho de José Mojica, já que o meu projeto, “O que te assombra?”, lida diretamente com emoções provocadas por medos que transitam pelo imaginário popular e, às vezes, por medos que eu internalizo em minhas inseguranças, incertezas e fraquezas.
Ressaltar a sua memória a cada visita à Necrópole São Paulo – cemitério em que descansa o Mestre – é uma missão gratificante, acima de tudo.
E que esse “Viva José Mojica Marins” em seus 90 anos de existência física e cósmica seja anunciado por toda a eternidade!
