O tempo pulsa sem cessar. Nesse complexo ecossistema, a música quanto à matéria da arte, absorve as mudanças sociais, econômicas e discursivas à partir da linha histórica.
Durante a Idade Média, por exemplo, a música deveria servir ao belo, como proposta pelos gregos platônicos e aristotélicos. Graças ao referencial descrito, a música foi aprisionada em uma série modal e que deveria servir apenas ao contemplativo, transcendente e elevação de espírito.
No entanto, é impossível em momentos de tensão prezar apenas pelo belo. Se a música deveria ter um papel transcendente, ela também deveria ultrapassar as lógicas humanas, portanto, revisitar e contestar modelos o tempo todo.
O tempo continuou pulsando o tempo todo, mas com mais rapidez. O modal ganhou um tom diferente no século XX, especialmente com o jazz modal, a tonalidade deu as caras entre os séculos XVII e XVIII e a dissonância escapou do domínio eclesiático e se tornou uma forma de expressão verdadeiramente legítima.
Não é incomum cair em casas de shows e ouvir bandas da cena pós-pandêmica, como comumente ficou conhecidas as bandas que nasceram após 2020, e se deparar com quantidades exorbitantes de ruídos, improvisações, dissonâncias e instrumentos repletos de efeitos particulares.
No discurso, uma reivindicação de um modo de vida para além dos panoramas apocalípticos, o grito de marginalizados e um ímpeto corajoso de levar a música em todos os cantos através justamente do incômodo. Já na estética sonora, uma cama de efeitos, ruídos e equipamentos custo-benefício que produzem um som totalmente particular.
As ondas sonoras produzem uma espécie de estranheza no público geral. Já que bandas como Oruã, Nigéria Futebol Clube, Gueeresh e Vinco voltam sua arte ao território do não convencional. Não só considero as bandas contemporâneas criadoras de uma estética ruidosa, mas em alguma medida, são também artistas de uma fotografia negligenciada por séculos e séculos.
A música alternativa, dos buracos, das periferias grita o Brasil como um tempo dissonante, hiperativo, ruidoso e categoricamente anárquico. Então, se é possível se incomodar com a dissonância presente nessas bandas, por que se acomodar com a situação material do nosso mundo?
