Há cem anos, onde hoje pouco mais de 29 mil passageiros embarcam e desembarcam diariamente, existia um conjunto de chácaras cercado por mata. O local ainda pertencia a Mogi das Cruzes.
Em 28 de julho de 1926, a então Estrada de Ferro Central do Brasil inaugurava a Estação Ferraz de Vasconcelos. O local não apenas facilitou o transporte de passageiros. A estação impulsionou a ocupação da região, atraiu moradores e acabou dando nome ao município que surgiria anos depois.
Segundo o historiador Pedro Peter Gomes, a cidade nasceu ao redor da ferrovia.
“A estação veio antes da cidade. Sem ela, dificilmente Ferraz de Vasconcelos teria se desenvolvido da forma como conhecemos hoje. Ela foi o ponto de partida para tudo o que aconteceu depois”, disse em entrevista à Gazeta..

O italiano que enxergou futuro na região
A história começa com Pietro Foschini, um imigrante italiano que vivia no bairro de Indianápolis, na capital paulista. Ao conhecer a região, acompanhado da esposa, Cesira Gordini Foschini, ele se interessou pelo clima e pela paisagem. Para ele, o local lembrava a Itália.
O casal decidiu comprar terras para criar um loteamento que recebeu o nome de Romanópolis. A proposta era transformar aquela área rural em uma pequena comunidade inspirada nas cidades italianas.
Porém, apesar das propagandas publicadas em jornais voltados à colônia italiana, não houve interesse pelos terrenos.
“Pietro percebeu rapidamente que o loteamento não iria prosperar sem uma estação ferroviária. Na época, o trem era o principal meio de transporte e também o caminho para o desenvolvimento econômico”, explica o historiador.

Uma ideia considerada impossível
Diante disso, Pietro passou a frequentar os escritórios da Central do Brasil para convencer a companhia ferroviária a construir uma estação em Romanópolis. Porém, as respostas eram sempre negativas. Para a Central do Brasil, não fazia sentido investir em um ponto onde praticamente não existiam passageiros.
“Aos poucos, ele passou até a ser malvisto dentro da empresa porque insistia em um projeto que parecia inviável”, diz Peter.
Foi nesse período que Pietro conheceu o engenheiro José Ferraz de Vasconcelos, funcionário da Central do Brasil.
“José Ferraz acreditou naquele projeto quando quase ninguém acreditava. Ele elaborou gratuitamente o projeto de engenharia da estação e passou a defender internamente a construção junto à direção da ferrovia”, diz o pesquisador.

Mesmo com o projeto pronto, a empresa ferroviária alegava não possuir recursos para executar a obra. Foi então que Pietro tomou uma decisão incomum para a época: a própria empresa responsável pelo loteamento, a S.A. Casa Branca, financiaria a construção da estação.
Com o projeto de José Ferraz e recursos particulares, a Central do Brasil autorizou a obra.
A história do engenheiro mineiro
O engenheiro José Ferraz de Vasconcellos nasceu em Carangola (MG), em 1880, e estudou engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
Construiu sua carreira na Estrada de Ferro Central do Brasil, onde ocupou diferentes funções ao longo dos anos. Sua atuação ganhou destaque no 2º Distrito de Tráfego, responsável pelo trecho ferroviário de São Paulo, do qual se tornou chefe.
Casou-se com Amalia de Alencar, com quem teve quatro filhos: Lea, Amalia Corina, Sergio e Dora Vasconcellos, essa última, sendo a segunda mulher a chegar ao posto de embaixadora no Ministério das Relações Exteriores em Nova York, de 1970 até a data da sua morte, em 1973.

Durante o período em que acompanhou a implantação da estação que seria construída em Romanópolis, José Ferraz tornou-se um dos principais defensores do projeto dentro da companhia ferroviária.
O conflito que mudou o nome da estação
Enquanto a construção avançava, o Brasil enfrentava, naquela época, a Revolução Tenentista de 1924. O conflito iniciou em 5 de julho daquele ano, visando derrubar o presidente da República, Artur Bernardes, combater as oligarquias e instituir o voto secreto.
Durante o conflito, muitos maquinistas deixaram de operar os trens por medo de ataques. José Ferraz resolveu assumir a condução das locomotivas.

Segundo Peter Gomes, uma dessas viagens terminou em tragédia.
“O trem sofreu um ataque nas proximidades de César de Souza, em Mogi das Cruzes. Mesmo ferido, José Ferraz tentou continuar até São Paulo, mas perdeu as forças quando passava pela região de Romanópolis, onde a estação estava sendo construída. Ele foi socorrido, levado para tratamento e acabou morrendo dias depois.”
Em reconhecimento ao amigo, o Pietro Foschini pediu que a estação deixasse de se chamar Romanópolis e recebesse o nome de José Ferraz de Vasconcelos. O pedido foi aceito pela Central do Brasil.

Dois anos depois, em 28 de julho de 1926, a estação foi inaugurada já com o nome que, anos depois, também batizaria o município.
Uma estação que marcou gerações
A estação centenária acompanhou o crescimento da cidade, mas também ficou conhecida pelos problemas estruturais. Durante décadas, quem precisava trocar de plataforma atravessava os próprios trilhos, já que a estrutura não existia passarela.
“Infelizmente, muitas pessoas perderam a vida tentando fazer essa travessia. Além disso, quando chovia forte, era comum os passageiros ficarem ilhados durante horas”, lembra Peter.
Em 3 de setembro de 2011, a estação funcionou pela última vez, sendo posteriormente fechada e demolida, para a construção de uma nova estrutura. A antiga construção deu lugar a uma estação provisória de madeira instalada ao lado do Viaduto Ayrton Senna.
A estrutura deveria funcionar por pouco tempo, mas permaneceu por vários anos.
“As escadas tinham degraus enormes e precisaram ser refeitas logo nas primeiras semanas. Era uma estação bastante precária”, recorda o historiador.
Em 2015, a atual estação foi inaugurada, já equipada com plataforma central, elevadores, escadas rolantes, passarela integrada e estrutura acessível.
Hoje, ela é considerada uma das mais modernas e movimentadas da Linha 11-Coral.
A pesquisa que virou livro e escultura
A história de José Ferraz de Vasconcelos quase se perdeu com o passar das décadas. Peter Gomes conta que começou a pesquisar a história da cidade ainda adolescente, mas encontrou poucas fontes disponíveis.
“Quando comecei, praticamente não existiam pesquisas sobre José Ferraz. Era muito difícil encontrar documentos”, afirma.
O cenário mudou em 2014, quando ele conheceu o escritor Nelson Albissu, autor do primeiro livro sobre a história de Ferraz de Vasconcelos. A partir dali, Peter reuniu documentos, reconstruiu a trajetória de José Ferraz e lançou um livro dedicado ao engenheiro.

Além do livro, decidiu prestar outra homenagem.
Professor de Arte e escultor, criou a escultura de José Ferraz de Vasconcelos, instalada na entrada da cidade.
“Meus alunos sempre perguntavam por que não existia nenhuma homenagem ao homem que dá nome ao município. Aquela pergunta ficou comigo durante anos. Em 2024, quando completarem 100 anos da morte dele, achei que era o momento de fazer esse reconhecimento.”
Todos os dias, milhares de pessoas passam pelas plataformas sem imaginar que aquele movimento começou com a insistência de um imigrante italiano e um projeto que muitos consideravam impossível.
Cem anos depois, a região continua levando adiante a memória do engenheiro, que ajudou a construir a cidade.






