Empresa é acusada de cobrar taxas ‘ocultas’ em pedido de visto para Portugal

Nos canais oficiais de informação, é especificada uma taxa de R$ 84 para usar os serviços da VFS Global, adicional aos R$ 400,16 pelo visto em si Por Folhapress

A empresa terceirizada VFS Global, escolhida pelo governo de Portugal para processar pedidos de vistos no Brasil, é acusada por estudantes de cobrar taxas adicionais às descritas pelos consulados e no site da companhia.

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Nos canais oficiais de informação, é especificada uma taxa de R$ 84 para usar os serviços da VFS Global, adicional aos R$ 400,16 pelo visto em si.

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No entanto, na hora de finalizar o pagamento, alunos relatam terem sido surpreendidos com cobranças que vão além da comissão anunciada.

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“Em nenhum momento eles avisam pelo que você está pagando. Paguei em torno de R$ 700 e não tenho a mínima ideia pelo que paguei”, afirma J.R., que aguarda análise de seu processo. “Estava tão nervoso na hora que só queria sair de lá. Fui perceber o quanto tinha pago depois.”

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O estudante P.G., aprovado para cursar mestrado em Portugal, avalia entrar na Justiça contra a empresa. “Fui cobrado em R$ 288,11 por taxas e serviços adicionais que não solicitei. Em nenhum momento fui informado e não concordei com a contratação de nenhum serviço adicional.”

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Nos últimos dois dias, a reportagem da Folha de S.Paulo recebeu 32 relatos de estudantes que afirmam terem sido cobrados por serviços não solicitados. A maioria diz ter enfrentado prazos superiores aos 60 dias previstos para o processamento dos pedidos.

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A lista de “serviços adicionais” e seus valores não está disponível nas áreas de informação dos consulados de Portugal, nas quais consta apenas a taxa padrão de R$ 84.

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Na página da VFS, a existência dos valores extras não é informada na área de “taxas consulares”. Para encontrá-los, é preciso ir à parte de informações gerais e consultar um menu secundário.

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A advogada e especialista em direito do consumidor Maria Inês Dolci, ex-coordenadora da Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), critica a dificuldade na obtenção de informações precisas sobre o preço efetivamente cobrado.

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“O valor dos serviços adicionais tem de estar na mesma página do valor principal, de forma que o consumidor veja com clareza e possa decidir. O que não pode são cobranças que vêm depois”, diz.

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“Os estudantes podem reclamar nos órgãos de defesa do consumidor para pedir que a empresa seja mais clara.”
Na lista de extras, há uma série de itens adicionais, como acompanhamento de processos por SMS (R$ 9,54), auxílio para preenchimento do formulário (R$ 59) e atendimento em horário “prime” (das 8h às 8h30, das 12h30 às 13h30 e das 15h às 17h), por R$ 98.

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Questionada, a VFS Global afirma que todos os serviços “são opcionais e estes são claramente mencionados como não obrigatórios”. Segundo a empresa, se um candidato ao visto não desejar adquirir algum dos itens, poderá desistir a qualquer momento.

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A possibilidade de receber uma conta bem mais cara gerou clima de apreensão em grupos de estudantes, que compartilham estratégias para minimizar o risco de, inadvertidamente, serem cobrados por um dos serviços.

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“Para eliminar toda chance de pagar taxas extras, já que eles não são claros ao repassar informações, arrumei todos os documentos, preenchi os formulários e até tirei os grampos de documentos, já que eles cobram por qualquer coisa”, diz Meverick Jeampiere, que procura ajudar os colegas compartilhando dicas.

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Após uma sucessão de atrasos nos prazos informados para o processamento dos vistos – problema também relatado por diversos estudantes – e uma cobrança final de R$ 702 por serviços não previstos, a gaúcha D.F. acabou desistindo de um intercâmbio acadêmico.

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“Em nenhum momento responderam meus e-mails ou atenderam às ligações”, queixa-se ela, que cancelou a viagem devido ao custo da mudança da passagem e a possibilidade de perder o início das aulas, em 16 de setembro.

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“Por fim, o número de rastreio [do processo] que disponibilizaram era inválido. Perdi dinheiro, paciência e tempo, pois a viagem não acontecerá.”

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Nos últimos cinco meses, sem alarde, os consulados portugueses no Brasil deixaram de receber pedidos de vistos de estudo em suas próprias instalações e passaram a encaminhar as solicitações para os postos terceirizados.

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A decisão, à época, foi anunciada como forma de agilizar os processos. Saturada, a rede consular de Portugal no Brasil vinha sofrendo, há pelo menos três anos, com atrasos repetidos na emissão dos vistos de estudantes no período que antecede o início do ano letivo na Europa, em setembro.

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Questionado se algum consulado no Brasil ainda emite diretamente o visto – o que, no momento, não é uma opção disponível nos sites das repartições – , o gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas afirmou que isso acontece “dentro das disponibilidades de agendamento existentes”.

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As universidades portuguesas têm apostado em várias estratégias de atração de alunos brasileiros desde uma mudança na lei, de 2014, que facilitou o ingresso de estrangeiros e permitiu a cobrança de mensalidades mais altas para eles.

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Os brasileiros formam a maior comunidade de estrangeiros nas universidades lusas. No último semestre, foram mais de 13 mil alunos, em cursos de graduação e pós. Isso representa mais de 30% de toda a comunidade internacional de estudantes.

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*Por Giuliana Miranda, da Folhapress