Entrevista por: Vanessa Dias com colaboração de Poliana Presses
São José dos Campos completa mais um aniversário consolidada como um dos principais polos de ciência, tecnologia e inovação do Brasil.
Entre os nomes que ajudaram a construir essa história está o climatologista Carlos Nobre, referência mundial nos estudos sobre mudanças climáticas e preservação da Amazônia.
Ex-aluno do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e pesquisador que fez parte da trajetória do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Nobre atribui à formação que recebeu na cidade a decisão de dedicar sua vida à ciência ambiental.
Nesta entrevista à Gazeta, ele relembra sua chegada a São José dos Campos, fala sobre os desafios impostos pelas mudanças climáticas, defende investimentos em ciência e apresenta sua proposta para criar um instituto de tecnologia voltado à Amazônia, inspirado no modelo do ITA.
Você chegou a São José dos Campos para estudar no ITA e acabou construindo uma carreira que transformou a ciência climática brasileira. Que lembranças guarda da cidade e de que forma essa passagem influenciou o cientista que você se tornou?
Eu cheguei ao ITA em 1970 para cursar Engenharia Eletrônica. Já tinha decidido seguir essa área, mas aconteceu uma coisa muito interessante que mudou o rumo da minha vida. Naquela época, o então diretor do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), brigadeiro Paulo Victor, estava preocupado porque poucos engenheiros formados pelo ITA iam trabalhar no Norte e no Nordeste do país. Então, em 1971 e 1972, ele organizou viagens em aviões da FAB para que os alunos conhecessem essas regiões.
Eu participei de três dessas viagens. Fui ao Pará e ao Amapá, depois ao oeste da Amazônia, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre. Foi nessa viagem ao Acre que conheci, pela primeira vez, uma comunidade indígena e uma comunidade ribeirinha.
Naquele período, praticamente não havia desmatamento na Amazônia. Eu tive a oportunidade de conhecer a floresta em toda a sua magnitude e beleza, além dos rios. Foi ali, entre o segundo e o terceiro ano do ITA, que decidi dedicar minha vida à Amazônia.
Nós já sabíamos que o governo militar pretendia avançar com a ocupação da região e havia iniciado a construção da Transamazônica. Então, decidi que queria trabalhar para compreender e proteger a Amazônia.
O ITA foi fundamental nessa escolha porque oferece uma formação muito sólida. Nos dois primeiros anos, temos uma base ampla, com disciplinas como Física, Química, Biologia e Ciências Sociais. Essa formação permite que o aluno siga diferentes caminhos científicos depois.
Foi isso que me levou a escolher a carreira científica na área ambiental, sempre com foco na Amazônia.
No fim do quinto ano, consegui um emprego no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o INPA, em Manaus. Inicialmente trabalhei como engenheiro, mas o diretor do instituto na época, o cientista Warwick Kerr, me incentivou a seguir a carreira científica.
Então me candidatei ao doutorado em três universidades americanas, fui aceito nas três e escolhi o MIT. Essa escolha também teve um significado especial porque o MIT ajudou a criar o ITA, ainda na década de 1950. O primeiro reitor do ITA veio do MIT, assim como vários professores que participaram da implantação da instituição.
Fiz meu doutorado em Meteorologia, voltei ao Brasil em janeiro de 1983 e passei a trabalhar no INPE, em São José dos Campos.
Então, nem preciso dizer a importância que o ITA teve na minha formação e na formação de tantos cientistas brasileiros.
São José dos Campos é conhecida pela inovação e pela tecnologia. Na sua visão, como uma cidade com instituições como o ITA, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e outros centros de pesquisa pode contribuir para enfrentar os desafios das mudanças climáticas nas próximas décadas?
São José dos Campos se tornou uma das cidades mais preparadas do Brasil, da América do Sul e até do mundo em diversas áreas da ciência e da tecnologia.
Um exemplo é a criação da Embraer. A empresa não existiria sem o ITA, já que seus fundadores eram engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Além disso, o ITA inspirou a criação do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), onde passei a trabalhar após concluir meu doutorado no MIT.
O INPE sempre teve uma forte atuação na área ambiental, utilizando tecnologias avançadas de sensoriamento remoto e informações obtidas por satélites para o monitoramento do meio ambiente. Também desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de satélites e na formação de pesquisadores por meio de programas de pós-graduação em áreas como meteorologia, climatologia e ciências ambientais.
Hoje, o INPE é reconhecido como um dos principais institutos de pesquisa ambiental, especialmente nos estudos sobre mudanças climáticas. Tive a felicidade de fazer parte dessa história. Cheguei ao instituto em janeiro de 1983 e participei de diversos projetos científicos, principalmente voltados para a Amazônia.
Posteriormente, recebi a missão de criar o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), em Cachoeira Paulista, que se tornou uma referência nacional em previsão do tempo, previsão climática e estudos ambientais. Mais tarde, também fundei o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST), em São José dos Campos, outro importante marco para a pesquisa científica.
Sem dúvida, o ITA teve um papel decisivo na criação do INPE, que hoje é um dos mais importantes centros de pesquisa ambiental do Brasil e do mundo, com foco especial nas questões relacionadas ao Brasil, à América do Sul e aos diferentes biomas do país.
Ao longo dos últimos 48 anos, dediquei minha carreira às pesquisas na Amazônia. Em 1991, fui o primeiro cientista a publicar estudos alertando para o risco de o desmatamento levar a floresta ao chamado ‘ponto de não retorno’, quando grandes áreas poderiam se transformar em uma savana degradada.
Nunca deixei de pesquisar esse tema. Muitos dos meus alunos de doutorado no INPE também desenvolveram estudos nessa área, que continua sendo uma das mais importantes para o futuro do planeta. A Amazônia está muito próxima desse ponto de não retorno, e o INPE permanece como uma das principais instituições dedicadas à pesquisa sobre esse desafio.
Um dos seus trabalhos mais recentes é a defesa de uma nova bioeconomia para a Amazônia e da criação de um instituto de tecnologia inspirado no modelo do ITA. Como nasceu essa ideia e qual o impacto que ela pode ter para conciliar desenvolvimento econômico e preservação da floresta?
Durante mais de três décadas, dediquei minha carreira ao estudo da Amazônia e dos riscos de ela atingir o chamado ponto de não retorno. Iniciei minhas primeiras pesquisas sobre esse tema em 1988 e, ao longo de aproximadamente 33 anos, concentrei meus esforços em compreender esse fenômeno e seus impactos.
Em determinado momento, percebi que havia contribuído para identificar os problemas, mas ainda não havia trabalhado diretamente na construção de soluções para evitá-los.
Foi então que nasceu o projeto Amazônia 4.0, criado para demonstrar o potencial da chamada sociobioeconomia da floresta em pé e dos rios fluindo, agregando valor aos produtos da biodiversidade amazônica.
Por meio desse projeto, já capacitamos cinco comunidades da Amazônia para produzir chocolates e “cupulate”, elaborado a partir do cacau e do cupuaçu, agregando valor à produção local.
Em breve, inauguraremos a primeira biofábrica instalada em uma comunidade indígena da história da Amazônia e da América do Sul, na terra indígena Paiter Suruí, em Rondônia. Será uma indústria com conceito 4.0 voltada à produção de chocolate, aliando tecnologia ao conhecimento tradicional dos povos indígenas.
Foi também nesse contexto que surgiu outra reflexão. Estudei no ITA e fiz meu doutorado no MIT. Percebi que, para salvar a Amazônia, seria necessário criar um instituto de excelência tecnológica dedicado exclusivamente aos desafios da região, algo equivalente ao que representam o ITA e o MIT em suas respectivas áreas.
Assim, ao lado da professora D’Alberto Ubal, uma das maiores especialistas do mundo em peixes e sistemas fluviais amazônicos, iniciamos os estudos para a criação do Instituto de Tecnologia da Amazônia (AmIT), uma instituição voltada exclusivamente ao desenvolvimento de soluções para preservar a floresta.
O projeto está estruturado em cinco áreas estratégicas:
- proteção dos ecossistemas aquáticos e dos sistemas fluviais;
- infraestrutura sustentável, abrangendo energia, transportes e logística para a Amazônia;
- recuperação das paisagens degradadas, considerando que cerca de um milhão de quilômetros quadrados da floresta já foram desmatados;
- fortalecimento da sociobioeconomia baseada na biodiversidade;
- desenvolvimento da Amazônia urbana, buscando melhorar a qualidade de vida da população, já que cerca de 73% dos habitantes da região vivem em áreas urbanas e, em grande parte, enfrentam condições de pobreza.
O projeto possui caráter pan-amazônico. Já estão sendo planejados seis polos de inovação: três no Brasil, um na Colômbia, um no Peru e um na Bolívia, com a perspectiva de integrar, futuramente, todos os países que compartilham a Amazônia.
Durante a COP30, também lançamos o estudo Saberes, que propõe incorporar ao Instituto de Tecnologia da Amazônia os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, reconhecendo seu papel essencial na conservação da floresta.
A ideia é que esse instituto tenha, para a Amazônia, um impacto semelhante ao que o ITA teve para o desenvolvimento tecnológico do Vale do Paraíba e do Brasil.
Assim como o ITA contribuiu para a criação da Embraer, hoje a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo, acreditamos que o Instituto de Tecnologia da Amazônia poderá desempenhar um papel decisivo na construção de soluções para preservar a floresta e evitar que ela atinja o ponto de não retorno.
Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado secas, enchentes e ondas de calor cada vez mais intensas. Que mensagem você deixaria para uma cidade como São José dos Campos sobre a importância de investir hoje em ciência, planejamento urbano e preservação ambiental para reduzir os impactos dessas mudanças?
A quarta questão é a seguinte: o aquecimento global já atingiu, nos últimos anos, cerca de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais.
A ciência vem alertando há muito tempo, e eu mesmo participei de diversos relatórios do IPCC, de que não devemos permitir que esse aquecimento ultrapasse esse limite. Essa meta foi consolidada no Acordo de Paris e reafirmada na COP26, realizada em Glasgow, na Escócia.
Todos os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas, secas, incêndios florestais, vendavais, ressacas e outros fenômenos, aumentam significativamente à medida que a temperatura global se aproxima ou ultrapassa 1,5 °C.
As projeções científicas indicam que esse patamar deverá ser atingido de forma permanente até 2030. As emissões de gases de efeito estufa continuam crescendo.
Em 2025, elas atingiram níveis recordes e não apresentaram redução significativa no primeiro semestre deste ano. Estamos, portanto, diante de uma situação extremamente preocupante.
Esse é um desafio global, mas que também afeta São José dos Campos e todas as cidades brasileiras. Além das mudanças climáticas, existe outro fator importante: a perda da cobertura vegetal nas áreas urbanas, que favorece a formação das chamadas ilhas de calor.
As ilhas urbanas de calor elevam ainda mais as temperaturas nas cidades e intensificam fenômenos como tempestades, vendavais e chuvas de grande intensidade.
São José dos Campos ainda mantém um nível intermediário de cobertura vegetal, diferentemente de cidades como São Paulo, onde esse problema é muito mais acentuado.
A combinação entre o aquecimento global e as ilhas urbanas de calor faz com que os eventos climáticos extremos se tornem cada vez mais frequentes e intensos.
Nesse contexto, é importante destacar o papel do INPE. Além de ter participado da criação do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) e do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST), ambos sediados em São José dos Campos, também fui convidado pela então presidente Dilma Rousseff, em 2011, para criar o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
A criação do Cemaden ocorreu após a tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, quando fortes chuvas provocaram enchentes e deslizamentos de terra que resultaram na morte de 918 pessoas.
Desde então, o Cemaden tornou-se uma instituição fundamental para o monitoramento de riscos naturais e para a emissão de alertas preventivos.
O INPE e o Cemaden continuam desenvolvendo pesquisas essenciais sobre os impactos das mudanças climáticas e dos eventos extremos.
Um exemplo recente foi o acompanhamento das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024. O Cemaden emitiu alertas diários indicando o risco de inundações, alagamentos e deslizamentos de terra, utilizando como base as previsões meteorológicas e climáticas produzidas pelo INPE.
Atualmente, estamos acompanhando o desenvolvimento de um novo episódio do fenômeno El Niño, que reúne condições para ser bastante intenso.
O INPE utiliza o BESM (Brazilian Earth System Model), modelo climático de sistema terrestre que ajudei a desenvolver, capaz de simular a interação entre oceano e atmosfera e prever fenômenos como o El Niño e seus impactos climáticos.
Essas informações servem de base para que o Cemaden possa emitir alertas cada vez mais precisos e contribuir para a redução dos riscos de desastres naturais.
Por isso, é fundamental manter e ampliar os investimentos em ciência e tecnologia em São José dos Campos, especialmente no INPE e no Cemaden.
Essas instituições desempenham um papel estratégico para o Brasil ao produzir conhecimento científico, monitorar as mudanças climáticas, estudar os efeitos das ilhas urbanas de calor e fornecer informações essenciais para proteger a população diante dos eventos climáticos extremos.”
No aniversário de São José dos Campos, que é reconhecida como um dos principais polos científicos do país, qual legado você espera que as novas gerações construam? O que diria aos jovens que estudam hoje no ITA ou sonham em seguir carreira na ciência para ajudar a proteger o planeta?
São José dos Campos é uma das mais importantes cidades do Brasil em pesquisa ambiental, estudos sobre o clima e investigações relacionadas aos riscos do aquecimento global. Esse trabalho precisa continuar e ser fortalecido.
O ITA sempre teve uma vocação muito forte para a área aeronáutica, contribuindo de forma decisiva para que o Brasil se tornasse uma referência mundial no setor.
Como já destaquei, a Embraer, hoje a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo, tem uma ligação direta com a excelência da formação oferecida pelo ITA.
Ao longo de sua história, o instituto manteve esse compromisso com a engenharia aeronáutica e ajudou a expandir esse conhecimento para diversas regiões do país.
Gostaria também de deixar uma mensagem aos alunos e às alunas do ITA. Quando estudei na instituição, havia apenas estudantes homens. Felizmente, isso mudou, e hoje o ITA conta também com a presença feminina, o que representa um avanço muito importante.
Minha mensagem é para que as novas gerações considerem, cada vez mais, a possibilidade de contribuir para as pesquisas ambientais e climáticas. São José dos Campos reúne instituições de excelência e tem todas as condições para continuar formando cientistas capazes de enfrentar os grandes desafios ambientais do século XXI.
Fico muito feliz em ver o alto nível dos alunos e das alunas do ITA e torço para que um número cada vez maior deles escolha seguir carreira nas áreas de pesquisa ambiental e mudanças climáticas, assim como aconteceu comigo.
Em novembro, minha turma completará 52 anos de formada. Ao longo de toda essa trajetória, acompanhei a evolução da ciência e das pesquisas sobre o clima. Mas é importante lembrar que serão justamente as novas gerações as mais impactadas pelos efeitos das mudanças climáticas e do aquecimento global.
Por isso, será necessário um grande esforço coletivo para enfrentar essa emergência climática. A ciência terá um papel fundamental nesse processo, e os jovens pesquisadores estarão entre os principais protagonistas dessa missão.
