A jovem Larissa Amorim, de 29 anos, morreu 59 dias após obter uma decisão liminar que obrigava a União a fornecer um medicamento indicado para o tratamento de sua leucemia. Mãe de dois filhos, ela não chegou a receber a imunoterapia prescrita pelos médicos e morreu em maio, antes do início do tratamento.
Diagnosticada com Leucemia Mieloide Crônica (LMC) aos seis anos de idade, Larissa conviveu com a doença por mais de duas décadas. Em 2025, porém, o quadro evoluiu para uma Leucemia Linfoblástica Aguda B (LLA-B), exigindo um transplante de medula óssea.
Antes do procedimento, a equipe médica indicou o uso dos medicamentos blinatumomabe e ponatinibe, após duas tentativas de quimioterapia não conseguirem controlar a doença.
Sem acesso aos medicamentos pela rede pública, a família recorreu à Justiça. Após ter o pedido negado em primeira instância, Larissa conseguiu uma liminar no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), em 13 de março, determinando que a União fornecesse imediatamente o tratamento. O medicamento, no entanto, nunca foi entregue.
Enquanto aguardava o cumprimento da decisão judicial, a paciente precisou passar por novos ciclos de quimioterapia. Com o sistema imunológico debilitado, ela contraiu uma infecção e morreu em 14 de maio.
“Ela estava com tanta esperança dessa medicação chegar. Quando saiu a decisão, ela me ligou chorando, emocionada”, afirmou o marido, Murillo Barbosa. Segundo ele, a demora foi determinante. “Para quem tem câncer, o tempo faz parte do tratamento. Não pode esperar.”
Caso leva entidade a acionar MPF e PGR
O caso de Larissa motivou a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) a protocolar uma representação junto ao Ministério Público Federal (MPF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR).
A entidade pede investigação sobre supostas falhas estruturais que estariam dificultando o acesso de pacientes oncológicos a medicamentos já reconhecidos pelo próprio Estado como eficazes e incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a Abrale, a demora entre a incorporação dos medicamentos e a disponibilização efetiva aos pacientes tem comprometido tratamentos em diferentes regiões do país.
Indisponibilidade do medicamento
Em nota, o Ministério da Saúde informou que adotou as medidas necessárias para cumprir a decisão judicial, mas alegou que havia indisponibilidade imediata do medicamento. A pasta afirmou que solicitou autorização judicial para realizar um depósito em dinheiro para aquisição do remédio, mas disse não ter recebido resposta.
O ministério também declarou que o blinatumomabe foi incorporado ao SUS para indicações específicas relacionadas à Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) e sustentou que a incorporação não contemplaria o quadro clínico da paciente. A decisão judicial, porém, registrou que Larissa era portadora de Leucemia Linfoblástica Aguda B, decorrente da evolução da leucemia diagnosticada na infância.
Medicamentos de alto custo
Especialistas explicam que, mesmo após a incorporação de um medicamento ao SUS, a oferta aos pacientes pode levar meses ou até anos. Isso ocorre porque, após a aprovação pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), ainda são necessárias etapas como atualização dos protocolos clínicos, definição da forma de compra e distribuição entre União, estados e municípios.
Os medicamentos indicados para Larissa têm alto custo. O blinatumomabe e o ponatinibe podem custar entre R$ 11,9 mil e R$ 43 mil por caixa, dependendo da apresentação.
O Ministério da Saúde informou ainda que a Portaria da Assistência Farmacêutica Oncológica (AF-Onco), publicada em 2025, prevê investimentos de R$ 2,2 bilhões para ampliar a oferta de medicamentos contra o câncer, com expectativa de beneficiar cerca de 112 mil pacientes e incorporar gradualmente 23 novos medicamentos de alto custo ao SUS.
