Novo chip imita o cérebro humano e pode reduzir consumo de energia em computadores

Estudo, publicado na revista Nature Communications, apresenta uma estrutura capaz de integrar processamento e memória em um único componente

Pesquisadores desenvolveram um novo dispositivo eletrônico que avança no campo da computação neuromórfica

Pesquisadores desenvolveram um novo dispositivo eletrônico que avança no campo da computação neuromórfica | Reprodução/Agência SP

Pesquisadores desenvolveram um novo dispositivo eletrônico que avança no campo da computação neuromórfica, área que busca reproduzir o funcionamento do cérebro humano em sistemas computacionais.

O estudo, publicado na revista Nature Communications, apresenta uma estrutura capaz de integrar processamento e memória em um único componente, o que pode reduzir o consumo de energia e aumentar a eficiência de sistemas eletrônicos.

O trabalho contou com a participação do professor Victor Lopez-Richard, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em uma rede internacional de pesquisa.

Diferentemente dos computadores tradicionais, que separam memória e processamento, a computação neuromórfica tenta unir essas funções, inspirando-se na dinâmica de neurônios e sinapses biológicas.

O dispositivo desenvolvido é formado pela interface entre dois óxidos — óxido de lantânio e alumínio (LaAlO) e titanato de estrôncio (SrTiO) — onde se forma um gás quase bidimensional de elétrons que atua como canal condutor.

Esse sistema permite que o componente funcione simultaneamente como transistor, memristor e memcapacitor, dependendo da configuração elétrica.

Computador imita cérebro humano

Na prática, isso significa que o dispositivo não apenas controla a corrente elétrica, como também armazena informações com base no histórico de sinais recebidos, característica considerada essencial para sistemas inspirados no cérebro.

Segundo os pesquisadores, a estrutura possui ainda uma arquitetura incomum, com portas de controle laterais, diferente dos transistores convencionais, o que altera a forma como o fluxo de elétrons é regulado. Outro diferencial é o funcionamento analógico, permitindo múltiplos estados intermediários.

O estudo identificou que a memória do sistema não depende diretamente do gás de elétrons, mas do acúmulo de cargas nas portas laterais, que modulam o canal de condução ao longo do tempo. Esse comportamento é semelhante ao funcionamento adaptativo das sinapses.

Outros conceitos

Os autores destacam ainda o conceito de polimorfismo eletrônico, em que um único dispositivo pode assumir diferentes funções apenas por mudanças na conexão elétrica. Essa flexibilidade pode reduzir a necessidade de interconexões e diminuir o consumo energético em arquiteturas computacionais futuras.

Testes iniciais mostraram aplicações em tarefas como reconhecimento de padrões, aprendizado sináptico e operações lógicas reconfiguráveis, com consumo energético reduzido.

Apesar dos avanços, os pesquisadores afirmam que o trabalho ainda está em fase experimental e que desafios como escalabilidade e integração com tecnologias existentes precisam ser superados antes de aplicações comerciais.

O projeto é resultado de uma colaboração internacional de mais de uma década, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).