O jornalismo perde as histórias, as palavras esquecidas e a escrita incansável de Silvio Lancellotti

O jornalista morreu nesta terça-feira (13) devido a sequelas decorrentes de um infarto

Silvio Lancellotti

Silvio Lancellotti | Divulgação

Nos dias seguintes à entrevista que concedeu ao jornal Folha de S.Paulo em abril deste ano, Silvio Lancellotti, 78, não estava preocupado com quando a matéria seria publicada ou mesmo com o que estaria escrito.

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Sua prioridade era obter as fotos em que estava ao lado dos seus gatos.

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“Antigamente eu tinha cachorros. Agora prefiro gatos. São mais caseiros.”

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O jornalista morreu nesta terça-feira (13) devido a sequelas decorrentes de um infarto.

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Os três animais foram os companheiros finais da vida do jornalista. Andavam sem parar pelo quarto dele, deitavam-se em cima de livros, espreguiçavam-se sobre a televisão.
Lancellotti teve de aprender a ser como seus bichos de estimação: caseiro. Era uma mudança e tanto para quem não gostava nem de passar muito tempo em quartos de hotéis nas viagens a trabalho. Como definia, jornalismo é baseado em reportagem e ele não se considerava apenas um repórter.
“Eu era um puta repórter.”

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Foi assim que cobriu as Copas do Mundo de 1990 e 1994 para a Folha de S.Paulo. Citava de memória as matérias que fez, lembrava-se de trechos. Dizia ter sido reconhecido pela RAI, a rede de TV estatal italiana, como o jornalista internacional que mais produziu matérias no Mundial realizado no país.
Rodou 30 mil quilômetros em 40 dias com um carro alugado pelo jornal, ressaltava.

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Lancellotti não gostava apenas de contar o que escreveu. Tinha mais prazer em relatar o processo, como chegou até a reportagem enviada. Eram histórias, muitas vezes, mais fantásticas do que o texto em si.
Como a afirmação de que saltou de um helicóptero ainda em voo na volta de Cagliari para Roma após um Holanda x Inglaterra. Ou como dizia ter parado o carro no meio da estrada, nos Estados Unidos, para telefonar à redação e informar que Maradona havia tido teste positivo no doping após o jogo contra a Nigéria, em 1994.

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Nas colunas que redigiu como articulista, colocou no vocabulário do futebol brasileiro termos esquecidos, como “cotejo” e “pugna”, em vez de “partida” ou “jogo”. Algo que havia ocorrido na semana anterior poderia ser no “próximo passado.”
Lancellotti tinha orgulho de resgatar essas expressões. Acreditava dar uma contribuição cultural para o jornalismo esportivo.

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Como comentarista do Campeonato Italiano, marcou época na Bandeirantes entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990. Depois faria o mesmo na ESPN. Suas histórias na emissora se tornaram lendárias. E ele parecia ter uma explicação desconhecida para tudo. Até para o motivo real para o Big Mac ter picles. Seria uma homenagem ao Brasil, jurava.

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Os relatos eram tão rocambolescos que o grupo humorístico Hermes e Renato criou Milton Bollotti, personagem que usava palavras em italiano e contava causos exagerados. A aparência, o jeito de falar e a gradiloquência eram claras referências a Lancellotti. O homenageado achava graça. “Morria de rir”, era a sua própria definição.

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“Acho um barato. Coloquei uns vídeos em sequência e mostrei para os meus netos. Vou ficar bravo? Antes do Hermes e Renato, quando eu ainda tinha programa de gastronomia, o Casseta & Planeta inventou o Silvio Lanchonete, feito pelo Bussunda”, lembra.

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A paixão pela comida veio antes da fama das transmissões de partidas internacionais. O chef de cozinha veio antes do jornalista dono das informações que ninguém mais tinha.

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“Se um zagueiro sueco tropeça no treino, o Silvio fica sabendo”, elogiou o narrador Luciano do Valle, antes de transmissão da Copa de 1994.

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Formado em arquitetura, Lancellotti teve programas sobre culinária na TV brasileira por mais de uma década. Lembrava-se de receitas mesmo nos comentários de futebol. Sempre adorou a gastronomia, outro hábito que se foi com a dificuldade de locomoção causada por acidente de carro há cerca de quatro anos. Tinha duas próteses, uma no quadril e outra na perna esquerda. Era um dos poucos assuntos que não gostava de abordar.

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Ficar sentado muito tempo fez com que desenvolvesse neuropatia periférica, uma lesão nos nervos do sistema nervoso. Seus tornozelos travavam. Entre todos esses contratempos físicos, o que mais parecia irritá-lo era cansaço nas cordas vocais que o deixava com a voz frágil e rouca.”É uma merda”, reclamava.

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As limitações só não o impediam de fazer o que mais adorava: escrever. Ele passou os últimos anos de vida sentado em frente ao computador, a digitar sem parar. Era blogueiro do portal R7 e se tornou autor de “thrillers” policiais.

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Um deles, “Honra ou Vendetta” foi adaptado para novela na Rede Record com o nome de “Poder Paralelo”. O último deles, “Assassinos do Abecedário”, foi lançado no final de agosto deste ano.
Lancellotti deixa a mulher, Vivian, os filhos Eduardo, Daniela, Giulia, Luísa e o enteado José Renato.