Mapa invisível da Amazônia: satélites revelam quase 3 mil pistas de pouso

Levantamento do MapBiomas mostra que centenas de pistas operam dentro de Terras Indígenas e áreas protegidas

Levantamento aponta que centenas de aeródromos clandestinos operam dentro de áreas protegidas na Amazônia

Levantamento aponta que centenas de aeródromos clandestinos operam dentro de áreas protegidas na Amazônia | Ilustração/IA/Gazeta de S. Paulo

A Amazônia Legal concentra uma malha aérea muito maior do que a oficialmente monitorada pelo Estado. Levantamento do MapBiomas identificou 2.869 pistas de pouso espalhadas pela região. Desse total, 804 estruturas estão encravadas dentro de Terras Indígenas (TI) e Unidades de Conservação (UC).

O volume expõe o avanço agressivo da infraestrutura aérea em áreas remotas da floresta e acende o alerta sobre o garimpo ilegal e o desmatamento.

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O estudo utilizou imagens de satélite de alta resolução para localizar desde aeródromos regularizados até estruturas improvisadas em regiões de difícil acesso.

O avanço das pistas sobre territórios protegidos na Amazônia

Segundo o MapBiomas, quase um terço das pistas identificadas está em zonas ambientalmente protegidas. O ranking da infraestrutura aérea na floresta é liderado por 3 estados:

Mato Grosso: 967 pistas;
Pará: 942 pistas;
Roraima: 385 pistas.

A concentração acompanha cirurgicamente as áreas de expansão do garimpo e do desmatamento nos últimos anos. A chegada dessas pistas altera a dinâmica de regiões isoladas da floresta.

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O que antes levava dias por rios ou trilhas, agora é acessado em poucas horas, acelerando não apenas a logística econômica, mas também as operações criminosas.

Logística do garimpo: a aviação como pulmão do crime

Investigações do Ministério Público Federal (MPF) confirmam que essa malha sustenta o “pulmão” do garimpo ilegal. As pistas são vitais para o transporte de combustível, alimentos e maquinário pesado, além de servirem para o escoamento do ouro extraído.

Especialistas em segurança pública avaliam que a aviação clandestina se tornou o elo estratégico para conectar os canteiros de exploração mineral aos centros urbanos e às rotas internacionais de comercialização, reduzindo custos operacionais para as organizações criminosas.

Diferença entre o mapa oficial e a realidade dos satélites

O levantamento revelou uma discrepância alarmante entre os dados territoriais e os registros oficiais.

MapBiomas: Identificou 2,8 mil estruturas com características de pistas;
Órgãos oficiais (Anac e Censipam): Monitoram pouco mais de mil pistas com indícios de uso clandestino.

A discrepância está ligada à metodologia. O MapBiomas mapeia a infraestrutura física existente, enquanto os órgãos de controle focam apenas em estruturas já sob investigação ou associadas a crimes específicos.

O cenário prova que a infraestrutura aérea na Amazônia avança em uma velocidade muito superior à capacidade de reação e monitoramento do Estado.

Em regiões de floresta densa, a combinação entre isolamento geográfico e logística aérea eficiente cria um “ponto cego” que dificulta o rastreamento do ouro e a retomada do controle territorial pelo poder público.