O sistema de bombeamento do túnel do Anhangabaú, na região central de São Paulo, não conseguiu impedir o alagamento registrado durante o temporal de quarta-feira (14), mesmo com as seis bombas fixas em funcionamento. O episódio deixou veículos submersos, motoristas ilhados e levantou uma questão: por que a estrutura não foi suficiente para escoar a água e quem deve responder pela melhoria do sistema?
Segundo informações divulgadas pela Prefeitura ao Uol, os equipamentos funcionaram normalmente durante a ocorrência. O Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) registrou 42 milímetros de chuva em aproximadamente 40 minutos na região do córrego do Anhangabaú, o equivalente ao esperado para 11 dias de todo o mês de outubro.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) atribuiu o alagamento à intensidade da chuva concentrada em um curto intervalo. A administração municipal anunciou que pretende ampliar a capacidade de bombeamento e reforçar os procedimentos de fechamento preventivo do túnel durante temporais. Também avalia construir um reservatório subterrâneo de água, conhecido como piscinão, sob o Terminal Bandeira, com custo estimado superior a R$ 350 milhões. A obra, porém, ainda não tem cronograma definido.
Como funciona o sistema de bombeamento do Anhangabaú?
O túnel conta com seis bombas fixas, monitoradas por sensores e câmeras. O sistema foi projetado para retirar a água acumulada na pista: o líquido passa por grelhas e canaletas, chega a um ponto de captação e é impulsionado por tubulações até o ponto de descarga da rede de drenagem.
A Prefeitura informou ao Uol que os equipamentos e o percurso de escoamento funcionaram durante o temporal, sem registro de falhas mecânicas. Mesmo assim, a estrutura não conseguiu retirar toda a água que chegou ao túnel no intervalo da chuva.
Porém, relatórios jornalísticos (como apuração do SP2 / Globoplay) apontaram que nem todas as bombas teriam sido acionadas a tempo ou que houve atraso no protocolo de fechamento preventivo do túnel pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), permitindo a entrada de veículos antes da interdição completa.
O funcionamento dos equipamentos não garante, por si só, que a capacidade de drenagem seja suficiente para qualquer volume de precipitação. Para esclarecer por que o sistema não deu conta da ocorrência, é necessário avaliar a vazão das bombas, tempo de acionamento, a capacidade das tubulações, as condições da rede de drenagem e a quantidade de água que chegou ao local.
Até o momento, não foi divulgada uma análise técnica conclusiva que determine qual combinação desses fatores explica o alagamento.
De quem é a responsabilidade por melhorar o sistema?
A responsabilidade pela manutenção e pelo aprimoramento da infraestrutura municipal de drenagem, assim como pelo planejamento e pela execução de medidas de prevenção de enchentes na cidade, é da Prefeitura de São Paulo.
A administração municipal precisa garantir não apenas que os equipamentos estejam operacionais, mas também avaliar se a estrutura existente atende aos riscos da região e quais intervenções são necessárias para reduzir a possibilidade de novos alagamentos.
A discussão não se limita às bombas instaladas no túnel. O Vale do Anhangabaú está em uma área atravessada por cursos d’água canalizados e subterrâneos, e a drenagem depende de uma rede mais ampla de galerias, tubulações e estruturas de escoamento.
Por isso, a prevenção exige avaliar o funcionamento do conjunto da infraestrutura, identificar os pontos de estrangulamento e definir obras compatíveis com os volumes de chuva que podem atingir a região.
Ministério Público cobra medidas da Prefeitura
A resposta do município aos alagamentos passou a ser questionada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP). Em manifestação apresentada após o temporal, a Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo pediu que a Prefeitura explique as providências adotadas durante a ocorrência, incluindo os protocolos de emergência, os alertas enviados à população, o fechamento do túnel e o atendimento às pessoas ilhadas.
O órgão também cobrou o cumprimento de uma decisão judicial que obriga o município a apresentar planos de curto, médio e longo prazos para prevenir e controlar enchentes.
Segundo o Ministério Público, os documentos apresentados pela administração não atenderam integralmente às exigências da decisão. A Promotoria solicitou que a Justiça reconheça o atraso no cumprimento das obrigações e aplique multa diária de R$ 10 mil, limitada a R$ 1,8 milhão. O pedido de multa ainda depende de análise judicial e não representa uma penalidade já aplicada.
Plano de drenagem prevê 201 intervenções até 2049
Em setembro de 2026, a Prefeitura publicou uma nova edição do Plano Diretor de Drenagem, que prevê 201 intervenções para reduzir alagamentos até 2049. Desse total, 173 obras são classificadas como prioritárias, com investimento estimado em R$ 16,51 bilhões.
Entre as intervenções citadas pela administração estão reservatórios já entregues e obras em andamento para ampliar a capacidade de armazenamento e escoamento da água da chuva. A Prefeitura também informou ter investido R$ 11,4 bilhões em drenagem entre 2021 e setembro de 2026.
Os valores, porém, precisam ser analisados separadamente: os R$ 11,4 bilhões correspondem a investimentos realizados no período informado, enquanto os R$ 16,51 bilhões representam a estimativa para o conjunto das obras prioritárias previstas no plano.
A existência de um plano de obras não elimina a necessidade de verificar prazos, execução e resultados. No caso do Anhangabaú, a Prefeitura anunciou a intenção de ampliar o bombeamento, mas ainda será necessário esclarecer qual solução técnica será adotada, quanto custará e quando poderá ser implementada.
O que precisa ser esclarecido para evitar novos alagamentos?
Segundo especialistas, precisamos falar mais sobre soluções de drenagem urbana. Analisar a capacidade máxima de vazão do sistema atual, a possibilidade de ampliar as bombas existentes, a impermeabilização excessiva do solos, condições das galerias subterrâneas e a necessidade de construir estruturas adicionais para armazenar temporariamente o excesso de água.
Também é necessário esclarecer como os protocolos de interdição do túnel podem ser aperfeiçoados para reduzir o risco de veículos ficarem presos quando o nível da água sobe rapidamente.
Enquanto não houver um diagnóstico técnico conclusivo e um cronograma definido para as melhorias, permanece uma lacuna entre o funcionamento declarado dos equipamentos e a capacidade efetiva de proteger a passagem subterrânea em temporais intensos.






