Se o Brasil fosse um navio, o agronegócio seria o motor da embarcação ainda potente, mas já com sinais de desaceleração no horizonte.
Em 2025, o PIB avançou 2,3%, impulsionado principalmente pela agropecuária, que registrou crescimento de 11,7% no período.
Para entender o peso real do setor, porém, é preciso olhar além das fazendas. Quando se somam insumos, agroindústria, logística e distribuição, o agronegócio passa a responder por cerca de 29% da economia nacional, segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
O dado ajuda a explicar por que o desempenho do campo tem impacto direto sobre o ritmo da economia brasileira.
Além da porteira: o peso da cadeia completa
Existe uma diferença importante entre o que aparece nas contas oficiais e o tamanho real do setor.
Pelo recorte do IBGE, que considera apenas a produção agropecuária nas fazendas, o setor representou cerca de 7,5% do PIB em 2025.
Já a metodologia utilizada por CNA e Cepea amplia o cálculo para toda a cadeia produtiva da indústria de fertilizantes e máquinas agrícolas até o transporte e a venda de alimentos. Nesse caso, o agronegócio passa a representar quase um terço da economia brasileira.
Dólares e empregos: o motor social do campo
O impacto também aparece em outras áreas da economia.
Em 2025, as exportações do agronegócio alcançaram US$ 169 bilhões, valor que ajudou a garantir o superávit da balança comercial brasileira e contribuiu para a estabilidade do real.
No mercado de trabalho, a presença do setor também é significativa. Considerando toda a cadeia produtiva, o agronegócio responde por cerca de 29 milhões de empregos, o equivalente a quase 26% da mão de obra ativa do Brasil.
Esse desempenho ajudou a compensar fragilidades em outros segmentos da economia ao longo do ano.
Para 2026, porém, as projeções indicam uma desaceleração. Depois do salto de 11,7% registrado em 2025, a expectativa é de crescimento em torno de 1,2%.
Dívidas e clima: os gargalos da safra 2026
Nem tudo são recordes no campo. O agronegócio enfrenta um chamado “efeito tesoura”, com custos de produção elevados e preços internacionais de commodities sujeitos a forte volatilidade.
Em outubro de 2025, a inadimplência no crédito rural chegou a 11,4%, um sinal de alerta para o sistema financeiro que sustenta parte relevante do financiamento agrícola.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão ambiental sobre o setor. Atividades ligadas ao uso do solo e à pecuária respondem por cerca de 75% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, enquanto menos de 5% da área plantada conta atualmente com seguro rural.
Nesse cenário, o Plano Safra 2025/2026 estimado em R$ 516,2 bilhões passou a priorizar linhas de crédito voltadas a produtores que adotam práticas sustentáveis, incluindo metas de recuperação e preservação ambiental.
Celeiro ou refém? O dilema das commodities
O peso do agronegócio na economia brasileira também alimenta um debate entre economistas.
De um lado, o setor é visto como uma das principais vantagens competitivas do país, graças à elevada produtividade agrícola e à capacidade de gerar superávits comerciais.
De outro, analistas alertam para o risco da chamada “armadilha das commodities”, na qual economias fortemente dependentes de produtos primários ficam mais expostas às oscilações de preços internacionais, às condições climáticas e à demanda externa.
Diante desse cenário, a questão central passa a ser como transformar a força do campo em desenvolvimento mais amplo.
O agronegócio continuará sendo um dos pilares da economia brasileira. O desafio, porém, será converter a renda gerada no setor em diversificação produtiva, inovação tecnológica e fortalecimento da indústria, o que reduz a dependência do país dos ciclos das commodities.
