Desde que ingressei no mercado de trabalho há uns anos escuto a mesma “piada”; as pessoas dizem “nem sei porque estou me estressando tanto, a gente não vai se aposentar mesmo” e apesar de entender o porquê, o motivo não mexia tanto comigo quanto agora.
Na Economia Comportamental existe o viés do presente, onde tendemos a atribuir um peso muito maior ao dinheiro, ao consumo e às necessidades atuais do que aos benefícios que só aparecerão daqui a trinta ou quarenta anos. Então é natural que a minha preocupação, apesar de existir, não se manifestasse de forma grave.
Mas agora, que chego cada vez mais perto de querer casar, ter uma casa e uma família, aquelas brincadeiras todas me assombram como nunca. E se você está lendo isso, deve te assombrar também.
Por que não iremos nos aposentar?
Nosso sistema de aposentadoria foi desenhado para um país que não existe mais. Quando a Constituição de 1988 foi promulgada, o Brasil era um país jovem, onde muitos trabalhadores pagavam a conta de poucos aposentados. Só que essa pirâmide virou de cabeça para baixo em um ritmo vertiginoso.
Como me explicou Deborah Bizarria, economista e especialista em Economia Comportamental pela Warwick University, o Brasil está vivenciando o envelhecimento populacional em uma velocidade incomparável à dos países ricos. A taxa de fecundidade despencou de 2,32 filhos por mulher em 2000 para apenas 1,57 em 2023.
No mesmo período, a proporção de idosos quase dobrou (de 8,7% para 15,6%) e deve alcançar impressionantes 37,8% em 2070. “Em outras palavras, estamos envelhecendo antes de enriquecer”, resume a economista. Teremos proporcionalmente menos pessoas em idade ativa contribuindo para sustentar mais pessoas recebendo benefícios por muito mais tempo.
Mundo do trabalho mudou (e nosso sistema não)
Para além da demografia, a forma como trabalhamos mudou drasticamente. Aquele caminho tradicional de se formar, entrar em uma grande empresa e passar 30 anos acumulando carteira assinada deixou de ser a regra.
Hoje, a rotina da nossa geração oscila entre trabalho autônomo, MEI, contratos PJ e períodos na informalidade. De acordo com os dados anuais da Agência de Notícias do IBGE, em 2025, quase quatro em cada dez trabalhadores (38,1%) estavam na informalidade.
O problema é que essa volatilidade enfraquece a arrecadação. Deborah pondera que a prestação de serviços por conta própria não é um problema em si, mas o perigo surge “quando a migração para esses vínculos vem acompanhada de contribuições menores, descontínuas ou inexistentes”.
Ela também lembra que soluções genéricas de incentivo não se sustentam a longo prazo. Deborah exemplifica essa dificuldade citando um estudo recente sobre o governo da Tailândia que, durante a pandemia, ofereceu um alto incentivo financeiro para informais aderirem à previdência voluntária: a cobertura saltou de 6% para 73% em meses, mas um ano depois apenas 13% continuavam pagando.
“Para muitos trabalhadores, o problema não era apenas burocracia ou falta de informação. Eles atribuíam pouco valor, naquele momento, ao tipo de seguro oferecido, especialmente quando comparado às necessidades mais urgentes do orçamento”. As urgências de hoje continuam atropelando a proteção do amanhã.
Além disso, revisões de evidências como as da JOI Brasil (iniciativa do J-PAL LAC com o BID) mostram que mensagens automatizadas ou oficinas genéricas quase não geram efeito real. Se a pessoa não percebe ganhos concretos no dia a dia, como aumento de renda ou acesso facilitado a crédito, a formalização simplesmente caduca.
O que deveria ser feito?
Esperar que a previdência pública resolva a vida da nossa geração sozinha é assumir um risco que não podemos arcar, mas transferir toda essa responsabilidade para os nossos ombros, nos cobrando uma disciplina financeira perfeita, também é uma ilusão.
Deborah defende que “transferir toda essa responsabilidade para a Geração Z seria apenas transformar um problema estrutural em uma cobrança individual”.
Para a especialista, a saída exige uma atuação conjunta em duas frentes estruturais:
- Reformas graduais e flexibilidade: O sistema público precisa passar por ajustes previsíveis em vez de reformas emergenciais. É preciso criar “contribuições mais simples e portáteis para autônomos, trabalhadores de plataformas e pessoas com rendimentos variáveis”, além do redesenho da poupança complementar.
- Ganhos de produtividade e renda: Se teremos menos braços no mercado, cada um de nós precisará produzir e ganhar mais. “Salários maiores significam mais capacidade de contribuição, maior arrecadação e maior possibilidade de poupança”, reforça. Para isso, o país precisa desburocratizar o ambiente de negócios e investir em qualificação profissional, especialmente em habilidades humanas essenciais no mundo da Inteligência Artificial, como liderança, gestão e resolução de problemas.
Além disso, Deborah alerta para o custo oculto de uma geração desprotegida: se não planejarmos, a conta estoura no SUS, no BPC (Benefício de Prestação Continuada) e dentro da própria família, impactando a renda de filhos e netos. E há um recorte social claro nisso:
“Quando uma pessoa idosa precisa de cuidado e a família não consegue pagar por esse serviço, esse trabalho tende a recair principalmente sobre as mulheres”, que já dedicam mais tempo aos afazeres domésticos e cuidados não remunerados. Por isso, discutir aposentadoria exige também criar uma forte agenda pública de cuidados.
O que podemos fazer agora?
Voltando ao viés do presente: sabendo que o nosso cérebro odeia abrir mão do consumo de hoje por algo que só virá daqui a 40 anos, precisamos melhorar nossos hábitos.
A educação financeira precisa parar de ser apenas uma aula teórica sobre juros compostos. Como pontua a economista, “não adianta dizer para uma pessoa poupar se ela tem renda baixa, instável e pouca perspectiva de progressão profissional”.
Para piorar, dados do Banco Mundial apontam que o brasileiro sofre com vieses comportamentais marcantes de baixa poupança, superotimismo e desconfiança histórica, herança de períodos de hiperinflação e confisco da poupança no passado. Apenas 32% dos brasileiros declararam ter poupado no ano anterior, contra 73% nos países da OCDE.
As redes sociais ainda colocam mais lenha nessa fogueira, multiplicando a pressão por consumo imediato ao nos expor diariamente a uma vitrine global idealizada de viagens e estilos de vida. Para rebater essa dinâmica e aproximar o futuro da nossa realidade hoje, a especialista sugere caminhos práticos.
Devemos utilizar “contribuições automáticas, metas mais concretas, lembretes, incentivos imediatos e contrapartidas” para não depender apenas da força de vontade mensal.
Além disso, precisamos enxergar a contribuição não apenas como um desconto ou imposto no boleto, mas como uma garantia real. Ponderar a proteção contra “incapacidade, doença, maternidade, morte ou perda de renda na velhice” traz o benefício para mais perto do presente.
Também é necessário entender que o modelo ideal “é aquele que combina um sistema público sustentável com instrumentos para que as pessoas consigam planejar e complementar sua renda no futuro”.
A Geração Z não está condenada a trabalhar até o último dia de vida, mas a era de encarar a aposentadoria como uma consequência automática acabou. A saída exige cobrança por políticas públicas sustentáveis e, simultaneamente, a construção do nosso próprio plano B a partir de agora.






