O Brasil está virando o “quintal” da inteligência artificial?

Enquanto EUA e China disputam a liderança em IA, especialistas alertam que nosso país pode ficar restrito ao papel de fornecedor para as Big Techs

Data Center/ Foto: CommScope/Flickr

Quando um usuário faz uma pergunta a uma inteligência artificial (IA), salva um arquivo “na nuvem” ou assiste a um vídeo por streaming, é comum imaginar que tudo acontece em um ambiente virtual.

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Na prática, porém, a nuvem tem endereço, consome recursos naturais e depende de enormes centros de processamento de dados.

Esses centros são chamados de data centers e estão no centro da corrida global pela inteligência artificial, e o Brasil passou a ocupar uma posição estratégica nesse mercado. Mas estamos participando do desenvolvimento da tecnologia ou apenas oferecendo os recursos necessários para que ela funcione?

Essa foi uma das principais discussões da mesa “A nova fronteira da IA: como investigar data centers na América Latina”, realizada durante o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, com participação de Júlia Faustina Abad, coordenadora do Programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Idec; Laís Martins, repórter do The Intercept Brasil; e Pablo Medina Uribe, editor do Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP). A mediação foi da jornalista Júlia Dolce, de O Joio e O Trigo.

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Por que o Brasil?

Segundo os debatedores, a resposta não está necessariamente na liderança tecnológica brasileira, mas em uma combinação de vantagens naturais e econômicas.

Entre os fatores apontados estão:

  • Disponibilidade de energia elétrica;
  • Abundância de água para resfriamento dos equipamentos;
  • Conexão internacional por meio de cabos submarinos;
  • Áreas disponíveis para instalação de grandes estruturas;
  • Falta de marco regulatório unificado e dedicado aos data centers;

Na avaliação apresentada durante o debate, enquanto Estados Unidos e China concentram investimentos em pesquisa, desenvolvimento de chips e modelos de inteligência artificial, países latino-americanos, como o Brasil, acabam atraindo principalmente a infraestrutura física necessária para sustentar esse ecossistema.

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A corrida tecnológica tem vencedores diferentes

Os palestrantes chamaram atenção para uma assimetria na cadeia global da IA. Embora os data centers sejam frequentemente anunciados como investimentos ligados à inovação, o conhecimento, a propriedade intelectual e o desenvolvimento das principais tecnologias permanecem concentrados em poucas empresas globais.

Enquanto isso, países como o Brasil entram na equação oferecendo território, energia e recursos naturais. O país já abriga cerca de 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina, atraindo aportes bilionários recentes de Big Techs, como os R$ 14,7 bilhões anunciados pela Microsoft e os R$ 10,1 bilhões previstos pela AWS para expansão de infraestrutura em nuvem e IA no país.

Em contrapartida, a presença brasileira nas etapas de maior valor agregado da cadeia continua irrisória: o país responde por menos de 1% do mercado global de semicondutores, não possui infraestrutura para fabricar os chips avançados que alimentam a IA e figura essencialmente como usuário, e não proprietário, dos grandes modelos e patentes que definem o setor.

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Promessas de desenvolvimento nem sempre se confirmam

Outro ponto discutido durante a palestra foi a narrativa construída em torno desses empreendimentos. Segundo os especialistas, grandes empresas costumam anunciar data centers destacando a geração de empregos, inovação e desenvolvimento econômico para as regiões escolhidas.

No entanto, jornalistas investigativos têm encontrado uma realidade mais complexa. Durante o debate, a repórter Laís Martins destacou a importância de investigar quem realmente se beneficia desses projetos, quais incentivos públicos são concedidos, quais empresas participam das negociações e quais impactos permanecem invisíveis para a população.

Embora as obras de construção civil de um data center hyperscale mobilizem temporariamente entre 1.000 e 3.000 trabalhadores, esse pico dura em média de 12 a 24 meses. Uma vez operacional, uma instalação gigante que ocupa vastos hectares exige uma equipe permanente de apenas 30 a 100 pessoas, focadas prioritariamente na manutenção predial, segurança e suporte técnico básico, enquanto os empregos de ponta e pesquisa continuam sediados fora do país.

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O custo invisível da nuvem

A inteligência artificial não existe apenas no ambiente digital. Cada interação com plataformas de IA depende de uma infraestrutura física que funciona ininterruptamente e demanda grandes quantidades de eletricidade e água para manter milhares de servidores operando.

Por isso, os debatedores defendem que o crescimento do setor precisa ser acompanhado por maior transparência sobre seus impactos ambientais e sociais. A dimensão desse impacto é visível nos números: a Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que os data centers globais consumirão mais de 1.000 TWh de eletricidade até 2026, o equivalente a todo o consumo energético anual do Japão ou a quase duas vezes o consumo de todo o Brasil.

Uma única consulta a uma IA gerativa pode gastar até dez vezes mais energia do que uma busca convencional na web, enquanto um único complexo de grande porte chega a demandar 100 MW de potência, o equivalente à energia consumida por uma cidade de 250 mil habitantes.

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Além da eletricidade, o uso intensivo da água para o resfriamento de servidores gera concorrência hídrica local. Um mega data center pode evaporar entre 11 e 19 milhões de litros de água por dia, volume suficiente para abastecer o consumo diário de uma cidade de quase 100 mil pessoas, ressaltando o risco de sobrecarga nos recursos naturais das regiões receptoras.

O papel do jornalismo

Para os participantes da mesa, investigar data centers vai muito além da cobertura de tecnologia.

Significa acompanhar negociações entre governos e empresas, analisar incentivos fiscais, identificar grupos econômicos envolvidos e avaliar quais comunidades serão diretamente impactadas pelos empreendimentos.

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Em um cenário de rápida expansão da inteligência artificial, o jornalismo investigativo passa a exercer um papel central para responder uma pergunta que vai além da tecnologia: quem realmente ganha com essa nova infraestrutura digital?