Patrícia Poeta fala sobre feminicídio, machismo e desafios das mulheres no Brasil

Comunicadora da Globo afirmou que o Brasil enfrenta uma grave onda de feminicídios e ressaltou que a televisão tem papel fundamental ao expor esses casos e cobrar respostas das autoridades

Apresentadora e jornalista Patrícia Poeta falou sobre feminicídio, machismo e os desafios enfrentados pelas mulheres no Brasil em entrevista exclusiva à Gazeta

Apresentadora e jornalista Patrícia Poeta falou sobre feminicídio, machismo e os desafios enfrentados pelas mulheres no Brasil em entrevista exclusiva à Gazeta | Divulgação

A apresentadora e jornalista Patrícia Poeta falou sobre feminicídio, machismo e os desafios enfrentados pelas mulheres no Brasil em entrevista exclusiva à Gazeta. 

Continua após a publicidade

À frente do programa Encontro, exibido pela TV Globo, a jornalista destacou que, apesar dos avanços na presença feminina em posições de liderança na comunicação, ainda existem barreiras importantes a serem superadas. Segundo ela, muitas mulheres que ocupam cargos de destaque ainda precisam provar repetidamente sua competência em ambientes historicamente dominados por homens.

Durante a conversa, Poeta também relembrou episódios marcantes do início da carreira, quando enfrentou julgamentos baseados na aparência. A apresentadora contou que chegou a ouvir que seria “apenas mais um rostinho bonitinho na TV”, o que a motivou a trabalhar ainda mais para demonstrar sua capacidade profissional. 

Para ela, esse tipo de preconceito ainda revela um problema estrutural presente em diferentes áreas, no qual conquistas femininas são frequentemente questionadas ou minimizadas.

Continua após a publicidade

Outro ponto central da entrevista foi a discussão sobre a violência contra a mulher no país. Poeta afirmou que o Brasil enfrenta uma grave onda de feminicídios e ressaltou que a televisão tem papel fundamental ao expor esses casos e cobrar respostas das autoridades. 

A jornalista defendeu leis mais duras, maior efetividade das medidas protetivas e um debate constante na sociedade sobre respeito e igualdade, destacando que o enfrentamento da violência exige não apenas políticas públicas, mas também mudanças culturais e educativas.

Confira entrevista exclusiva abaixo: 

Continua após a publicidade

Gazeta: Você está à frente de um dos principais programas da televisão brasileira. Que desafios ainda existem para mulheres em posições de liderança na comunicação?

Patrícia Poeta: A televisão vem de uma geração em que era, em grande parte, comandada por homens – nas redações, na direção, nas decisões editoriais… Ao longo da minha trajetória, fui vendo esse cenário mudar, ainda que lentamente. Hoje já ocupamos mais espaços, mas ainda existem desafios importantes.

Mulheres em posições de liderança precisam, muitas vezes, provar duas vezes a sua competência e lidar com julgamentos que não recaem da mesma forma sobre os homens. Por isso, acredito muito na importância de continuarmos ocupando esses lugares, abrindo caminhos e mostrando que a comunicação fica mais rica quando diferentes vozes são ouvidas. Quanto mais mulheres participando das decisões, contando histórias e conduzindo conversas relevantes, mais plural e representativa a televisão se torna.

Continua após a publicidade

Ao longo da sua carreira, em que momentos você sentiu que precisou provar mais por ser mulher?

Acho que no começo da minha carreira eu tive muito que provar quem eu era, principalmente por ser mulher. 

Cheguei a ouvir assim que entrei na redação de uma colega ( que nem me conhecia e nem tinha visto meu trabalho ainda) , por uma  questão de aparência: “ ihhh…essa aí é só mais um rostinho bonitinho na TV”. 

Continua após a publicidade

Aquilo me bateu num grau…porque quem me conhece sabe o quanto sou dedicada, o quanto estudei e me informei pra estar onde estou, chegar onde cheguei. 

Trabalhei muito, muitas vezes o dobro, dia e noite para mostrar que eu estava ali pelos meus méritos, pelo meu esforço. Pra provar que era capaz. 

Uma das coisa que até hoje me causa muito incômodo é quando tentam diminuir a conquista de uma mulher, dizendo que ela está ali por qualquer outro motivo que não seja seu talento, sua dedicação, sua competência. 

Continua após a publicidade

São Paulo tem registrado casos recentes de feminicídio que chocaram o país. Como a televisão pode contribuir para que esses episódios não sejam apenas números, mas gerem reflexão e mudança?

O problema não está só em São Paulo. O Brasil vive uma onda de feminicídio, de falta de respeito, de falta de empatia e de algo que deveria ser básico: o cuidado com as mulheres. E o papel da televisão é mostrar essa realidade.

Muita gente diz: ‘ah, mas a TV só fala de feminicidio’. Fala porque essa é a realidade do país. E se mesmo falando, mostrando e denunciando os números continuam aumentando, imagina se a gente simplesmente deixasse isso de lado, fechasse os olhos pra esse problema?! 

Continua após a publicidade

No programa, a gente tenta sempre acompanhar os casos. Depois que a história vai ao ar, eu peço para a equipe voltar, ver em que ponto está a investigação, se houve justiça, se houve alguma resposta… Porque é importante cobrar, estar atenta e vigilante.

Eu visitei um abrigo onde mulheres precisam se esconder para fugir da violência dentro de casa. E uma mãe me contou uma história que me arrepiou. Ela dizia que tinha medo de fugir, sair de casa. 

Até que a filha pré-adolescente – que testemunhava aquela mãe apanhando com frequência – olhou para ela e disse: ‘mãe, se for para morrer, não é melhor morrer  tentando?!”

Continua após a publicidade

Quando uma criança, uma menina que ainda está formando a visão dela sobre o mundo, já fala algo assim, já vive num ambiente como esse, é porque a gente, como sociedade, está falhando. Não está cuidando nem da mãe, nem da filha. 

Por isso a gente precisa falar, denunciar, cobrar políticas públicas, cobrar leis mais duras e, principalmente, garantir que esses crimes não fiquem impunes. Porque só assim esses números vão começar a diminuir de verdade.

Você acredita que a forma como a imprensa aborda a violência contra a mulher evoluiu nos últimos anos?

Continua após a publicidade

Com certeza mudou muito. Durante muito tempo, a violência contra a mulher ficava quase escondida nos jornais. 

Muitas vezes aparecia como uma nota pequena ou só ganhava destaque em casos muito extremos. Hoje existe um entendimento maior de que isso precisa ser mostrado, discutido e denunciado. A gente vem de um histórico em que, inclusive, a própria lei chegou a proteger homens que alegavam estar defendendo a chamada ‘honra’. 

Isso mostra o quanto a sociedade evoluiu — e o quanto ainda precisa evoluir. O jornalismo passou a entender que crimes contra mulheres não podem ser tratados como algo menor.

Continua após a publicidade

Hoje existe uma preocupação maior em mostrar esses casos, em discutir, em cobrar investigação e em cobrar que as leis que protegem as mulheres realmente sejam aplicadas. Porque quando o jornalismo mostra o que está acontecendo, ele também ajuda a pressionar por mudanças.

Antigamente, de dez casos, talvez um fosse noticiado. Hoje eles aparecem mais — e isso não significa que naquela época existia menos violência, mas que hoje existe mais consciência de que esses crimes precisam ser expostos, debatidos e combatidos. E eu torço para que essa conscientização evolua ainda mais.

O que ainda falta para que o enfrentamento à violência contra a mulher avance de forma mais efetiva no Brasil?

Continua após a publicidade

O que ainda falta são leis mais duras e, principalmente, mais efetivas. Quantos casos a gente vê de mulheres que têm medidas protetivas justamente para manter o agressor distante e, mesmo assim, esses homens voltam. Eles voltam porque acreditam na impunidade, acreditam que a lei, de alguma forma, vai ser branda com eles.

Ainda existe uma cultura muito antiga de posse, aquela ideia absurda de que o homem tem algum direito sobre a mulher. Isso não existe. Nenhum homem é dono do corpo de uma mulher. O corpo de uma mulher pertence somente a ela.

Mas também existe um trabalho que precisa ser feito dentro de casa. Nós, mães e pais, que educamos meninos, precisamos ensinar empatia, respeito e cuidado. Ensinar desde cedo que violência contra a mulher é inaceitável.

Continua após a publicidade

Por isso, esse assunto precisa ser debatido, precisa estar no centro da conversa da sociedade. Porque se a gente não enfrentar esse problema de forma séria, esse tipo  de violência só tende a crescer —  e com casos cada vez mais brutais, cruéis. 

Que mensagem você deixaria para mulheres que enfrentam situações de violência ou desigualdade?

Eu acho que, mais do que dar um conselho, a primeira coisa que a gente precisa fazer é acolher essa mulher. Ela chega machucada, traumatizada, muitas vezes em estado de alerta. Então o primeiro gesto tem que ser de cuidado: abraçar, acolher e ouvir. Ouvir o que ela sente, entender a dor dela e, principalmente, entender o que ela precisa naquele momento.

Continua após a publicidade

A partir daí, orientar para que ela procure ajuda e saia dessa situação — buscar as autoridades, a Delegacia da Mulher, centros de acolhimento, a justiça.
Eu sei que muitas mulheres ainda têm medo, que é difícil, até porque existem casos em que elas nem se sentem levadas a sério. 

Mas mesmo assim é importante procurar apoio e não enfrentar isso sozinha.

E acima de tudo, é fundamental dizer a essas mulheres: vocês não são culpadas pelo que está acontecendo. A violência nunca é culpa da vítima. E por mais difícil que pareça, a gente não pode desistir. A gente precisa continuar lutando e permanecer unidas, porque quando uma mulher é ferida, de alguma forma todas nós somos atingidas.

Continua após a publicidade

No Dia da Mulher, o que mais precisa ser lembrado além das homenagens?

O Dia da Mulher precisa ser, antes de tudo, um momento de reflexão e de compromisso. Compromisso de lembrar que violência contra a mulher não é aceitável de forma alguma — em nenhuma circunstância e em nenhum lugar. Violência precisa ser combatida, denunciada e banida da nossa sociedade.

Esse também é um dia para reconhecer as conquistas das mulheres, mas principalmente para lembrar que ainda há muito caminho pela frente. 

Continua após a publicidade

Que meninas possam crescer sabendo que têm direito a respeito, a oportunidades e a ocupar qualquer espaço que desejarem.

E que todos nós, como sociedade, assumamos a responsabilidade de construir um país onde ser mulher nunca seja sinônimo de medo, mas de liberdade, dignidade e voz.

Costura e campanha internacional 

Patrícia Poeta teve um começo de ano mágico ao participar da Semana de Alta-Costura de Paris, um dos eventos mais exclusivos do calendário internacional da moda.

Continua após a publicidade

Além de ser convidada para acompanhar os desfiles da temporada, a jornalista realizou o sonho de participar de sua primeira campanha publicitária internacional.

Durante o período em que esteve em Paris, Patrícia Poeta compartilhou fotos e vídeos nas redes sociais, exibindo figurinos de alta-costura e reforçando sua conexão com o universo da moda.