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Quarta, 22 Mai 2019 14:37

Ações da Fifa não impedem que tensões geopolíticas entrem em campo no futebol

A tensão política entre Armênia e Azerbaijão fez com que o meia-atacante armênio Henrikh Mkhitaryan desistisse de viajar a Baku, capital azeri, para a final da Liga Europa
A Uefa interveio para garantir a segurança de Mkhytarian e para que ele recebesse o visto para poder viajar, mas o jogador preferiu não jogar a final A Uefa interveio para garantir a segurança de Mkhytarian e para que ele recebesse o visto para poder viajar, mas o jogador preferiu não jogar a final Divulgação
Por Folhapress
De São Paulo

Desde que os jogadores da seleção brasileira comemoraram o título da Copa das Confederações de 2005 com mensagens religiosas em camisetas, as autoridades do futebol fazem o possível para separar esporte da religião e política. Às vezes, a mistura é inevitável.

A tensão política entre Armênia e Azerbaijão fez com que o meia-atacante armênio Henrikh Mkhitaryan, 30, desistisse de viajar a Baku, capital azeri, para a final da Liga Europa. No próximo dia 29, o Arsenal enfrenta o Chelsea no estádio Olímpico da cidade.

"Foi uma decisão muito, muito, muito pessoal dele. Deixamos o jogador à vontade", disse o técnico do Arsenal, time de Mkhitaryan, Unai Emery.

Mkhitaryan poderia ser o segundo jogador a fazer gols em finais do torneio por dois times diferentes. Em 2017, ele marcou no título do Manchester United contra o Ajax. O único que conseguiu o feito até hoje foi o colombiano Radamel Falcao. Ele anotou em 2011 pelo Porto e no ano seguinte pelo Atlético de Madrid.

Armênia e Azerbaijão estiveram em conflito entre 1988 e 1994, no que ficou conhecida como a Guerra de Nagorno-Karabakh. Este é o nome de enclave no território azeri que opôs o governo do país à maioria étnica armênia residente no local. Cidadãos armênios não costumam receber vistos para visitar o Azerbaijão e vice-versa.

Evitar que times dos dois países se enfrentem em competições oficiais é apenas uma das preocupações da Uefa nos torneios europeus. É um dos exemplos que que as entidades do futebol, apesar do esforço, não conseguem dissociar a política do esporte.

A cada sorteio para eliminatórias da Eurocopa ou Copa do Mundo, a Uefa também determina que Gibraltar e Espanha não podem estar na mesma chave. Gibraltar, um protetorado do Reino Unido, tem seleção independente, mas a soberania britânica sobre o território é contestada pelos espanhóis. Também por motivos políticos, mas não os mesmos, times ucranianos e russos não podem se enfrentar nos torneios continentais, a não ser em uma pouco provável final.

Os governos dos dois países vivem em delicada relação política desde que a Rússia anexou a Crimeia, região que era controlada pela Ucrânia, em 2014.

Israel, encravado no Oriente Médio, disputa competições de clubes e seleções na Europa para evitar partidas contra rivais regionais que veem o país como inimigo.

Em jogos de seleções, Kosovo não pode enfrentar Sérvia e Bósnia, duas nações que não reconhecem a independência do território que antes fazia parte da Iugoslávia.

A Uefa interveio para garantir a segurança de Mkhytarian e para que ele recebesse o visto para poder viajar. O embaixador do Azerbaijão no Reino Unido também pediu que o jogador embarcasse para Baku. Mas ele preferiu, após consultar sua família, ficar em casa.

Esta foi uma opção adotada também, mesmo que sob risco, por Matthias Sindelar, o austríaco considerado um dos maiores jogadores do mundo na década de 1930. Com a anexação da Áustria pela Alemanha, ele foi convocado para defender a seleção do país invasor e se recusou. Disse estar velho demais para continuar em campo.

Em um amistoso chamado de "jogo da reconciliação", em 1938, entre Áustria e Alemanha, para ressaltar a integração entre os dois países, a Áustria venceu por 2 a 0. Sindelar fez um dos gols e comemorou dançando em frente aos oficiais nazistas. No ano seguinte, o jogador e sua namorada foram encontrados mortos no apartamento deles em Viena. A causa foi vazamento de gás, mas até hoje o caso não foi esclarecido.

Mkhitaryan e Sindelar, sem comparar a gravidade dos dois casos, são dois exemplos de jogadores que se recusaram a participar de uma partida de futebol. Mas há caso em que um país boicotou o jogo.

União Soviética e Chile deveriam se enfrentar na repescagem das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974. Na primeira partida, em Moscou, o confronto terminou 0 a 0. A volta foi marcada para 21 de novembro de 1973, em Santiago. A seleção soviética não viajou para a América do Sul.

A federação do país havia solicitado à Fifa que a decisão não acontecesse no Chile por causa da derrubada do governo socialista de Salvador Allende, substituído pelo presidente militar Augusto Pinochet. O pedido foi negado e a União Soviética decidiram abdicar da disputa.

Os jogadores chilenos tiveram de se trocar, entrar em campo, se posicionar e, ao apito do juiz, trocar passes e fazer um gol para selar a classificação para o Mundial na Alemanha.

Logo após isso, o Santos pisou no gramado para um amistoso com a seleção, como uma espécie de celebração chilena. Os brasileiros venceram por 5 a 0.

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