Existem problemas que nunca devem ser ignorados durante uma corrida e que podem transformar um problema potencialmente tratável em uma emergência médica. Isso é o que explica o Dr. Daniel Marotta, cardiologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.
“Dor ou aperto no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, tontura, sensação de desmaio, palpitações intensas, perda da consciência, confusão mental e mal-estar importante são sintomas que exigem interrupção imediata da atividade e avaliação médica”, explica Daniel Marotta.
O assunto ganhou repercussão depois que um corredor de 50 anos passou mal e morreu após cruzar a linha de chegada da 10ª edição da SP City Marathon, realizada no último domingo (26/7), em São Paulo.
O homem foi vítima de uma parada cardíaca depois de completar o percurso de 21 quilômetros e não resistiu.
O que causa um colapso cardíaco
Segundo Marotta, as causas de um colapso cardíaco em atletas durante provas longas podem variar conforme a idade.
“Em atletas com menos de 35 anos, os eventos costumam estar relacionados a doenças cardíacas hereditárias ou congênitas, como a cardiomiopatia hipertrófica, cardiomiopatia arritmogênica, alterações elétricas do coração (canalopatias) e anomalias das artérias coronárias, muitas vezes ainda desconhecidas pelo próprio atleta”, explica.
Já em atletas com mais de 35 anos, a principal causa é “a doença arterial coronariana, ou seja, o estreitamento ou entupimento das artérias do coração por placas de gordura, que pode desencadear um infarto ou uma arritmia grave durante o esforço intenso”.
O especialista ainda afirma que a morte súbita em provas esportivas é um evento raro, mas que exige atenção e investigação cuidadosa para a determinação da causa e a orientação correta para os familiares.
Gatilhos externos também podem causar crises
Porém, os gatilhos para um evento fatal não se privam aos fatores biológicos, mesmo para pessoas com alguma predisposição.
De acordo com o cardiologista, “calor excessivo, alta umidade, desidratação, distúrbios dos eletrólitos e esforço físico prolongado aumentam significativamente a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular”.
Os danos à saúde podem aumentar em caso de histórico de tabagismo, colesterol alto, hipertensão e diabetes, além de casos familiares anteriores.
Em pessoas com uma doença cardíaca previamente existente, mesmo sem sintomas, fatores do tipo podem atuar para infarto, arritmias potencialmente fatais e colapso cardiovascular.
Consumo inadequado pode facilitar problemas cardíacos
Atletas saudáveis também podem sofrer com a exaustão causada pelo calor. A situação pode se agravar, caso não haja reposição e hidratação adequadas.
O consumo antes da prova também é determinante, especialmente quando há excesso de bebidas alcoólicas. Ingerir quantidades consideráveis de álcool favorece a desidratação e altera a frequência cardíaca.
Da mesma forma, o “uso indiscriminado de bebidas energéticas, pré-treinos e suplementos estimulantes, principalmente quando associados a altas doses de cafeína, pode elevar a frequência cardíaca e a pressão arterial, aumentando o risco de complicações em indivíduos predispostos”, detalha Marotta.
Como reduzir os riscos de problemas cardíacos
O check-up cardiológico reduz significativamente a chance de eventos, mas isso não identifica 100% das doenças. Daniel Marotta ainda esclarece que nenhum exame é capaz de eliminar completamente o risco, com algumas condições permanecendo ocultas durante muito tempo e se manifestando com o esforço extremo.
Por isso, “a avaliação deve ser individualizada, levando em consideração idade, histórico familiar, fatores de risco, sintomas e modalidade esportiva. Em alguns casos, podem ser necessários exames complementares, como ecocardiograma, monitorização cardíaca, tomografia das artérias coronárias ou ressonância magnética cardíaca”.
O doutor finaliza, dizendo que mais importante do que realizar um exame é fazer uma avaliação cardiológica completa e periódica, supervisionada por um especialista.
Por fim, ele cita que “o mais importante é lembrar que um check-up realizado há alguns anos não garante que a condição cardiovascular permaneça a mesma”, e que “o risco muda com a idade, com o surgimento de novos fatores de risco e com o aumento da intensidade dos treinos”.
A melhor forma de evitar doenças cardiovasculares é com a prática da atividade física, desde que seja feita de forma consciente e respeitando os sinais do próprio corpo.
