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DESDOBRAMENTOS

Com falência da Livraria Cultura, editoras empacotam livros e esvaziam loja

Apos a decretação de falência, o receio é que, se as lojas da empresa forem lacradas, as editoras tenham dificuldades em reaver seus estoques

BÁRBARA BLUM E MAURÍCIO MEIRELES - FOLHAPRESS

Publicado em 10/02/2023 às 20:03

Atualizado em 10/02/2023 às 20:06

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Entre as casas que foram buscar exemplares na livraria estão a JBC e a Companhia das Letras, que tinha um caminhão estacionado próximo. / DIVULGAÇÃO

O cenário na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, nesta sexta-feira (10), é de várias prateleiras vazias e caixas de livros espalhadas na principal unidade da empresa. 

Um dia depois de a Justiça decretar a falência da Cultura, algumas editoras começaram a recolher seus títulos -o receio é que, se as lojas da empresa forem lacradas, elas tenham dificuldades em reaver seus estoques.

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Entre as casas que foram buscar exemplares na livraria estão a JBC e a Companhia das Letras, que tinha um caminhão estacionado próximo.

Este jornal apurou que o plano da Companhia era recolher 15 mil exemplares da loja. A editora também teve que suspender planos de inauguração de um espaço infantil, previsto também para esta sexta-feira.

Hoje, além da loja do Conjunto Nacional, a Cultura tem apenas mais uma unidade, em Porto Alegre.
Desde o anúncio da falência, na noite desta quinta-feira (9), editores chegaram a receber ligações de representantes da Livraria Cultura tentando tranquilizá-los. O recado é que, caso a decisão da Justiça não seja revertida, os estoques serão colocados à disposição para recolhimento.

No Conjunto Nacional, alguns visitantes espiavam os títulos em busca de descontos, mas não havia sinal de nenhum saldão. Os vendedores da loja afirmavam que os livros que estavam nas estantes continuavam disponíveis para compra, sem data definida para encerramento.

Ao mesmo tempo, a Citadel e a Alta Books iam contra o movimento e inauguravam um espaço conjunto na loja.

"Enquanto tinha um pessoal tirando os livros, nós estávamos colocando", diz Marcial Conte, editor-chefe da Citadel. "Financeiramente não sei o que vai acontecer. Estaremos lá com 2.000 livros. Se depois vai ser problema, se vão lacrar a loja, isso nosso departamento jurídico vai ver. Estamos olhando além das questões financeiras."

A falência da Cultura foi decretada pelo juiz Ralpho Waldo De Barros Monteiro Filho, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.

Na sentença, o magistrado afirma que, apesar de reconhecer a importância da Livraria Cultura, o grupo não conseguiu superar sua crise econômica. Segundo o juiz, o plano de recuperação judicial vinha sendo descumprido e a prestação de informações no processo vinha sendo feita de modo incompleto.

"Foi tudo uma surpresa. Vamos recorrer da decisão", diz o CEO da Livraria Cultura, Sérgio Herz. "Eu confio totalmente na recuperação judicial da empresa. Estamos crescendo. Comparando a janeiro do ano passado, a loja do Conjunto Nacional cresceu 60%. A de Porto Alegre, 15%. É um resultado bom."

Questionado sobre o recolhimento de livros na sua principal loja, Herz diz que "óbvio que fica todo mundo nervoso".

"Eles [os fornecedores] querem ter segurança do que vai acontecer. Temos fornecedores que estão mais assustados, e há outros que querem esperar [antes de recolher os livros]. Estamos trabalhando para reverter [a decisão da Justiça]."

O pedido de recuperação judicial foi apresentado em 2018, depois de uma crise que se estendia. Na ocasião, a Livraria Cultura declarou ter R$ 285,4 milhões em dívidas.

Com a decretação da falência, a administradora judicial fica em tese liberada para lacrar as lojas da empresa. Depois, os ativos da empresa são inventariados e, em seguida, leiloados para pagar os credores. Se a companhia recorrer, a Justiça pode suspender esse processo.

O mercado editorial acha que com a falência, fica ainda mais improvável receber o pagamento das dívidas -isso porque os editores não entram no topo da lista de prioridades. Antes deles, por exemplo, vêm as dívidas trabalhistas.

Mas a decisão da Justiça não pega as editoras de calças curtas como o anúncio da recuperação judicial pegou em 2018.

Com o início desse processo, algumas grandes casas pararam de fornecer diretamente para a Cultura -ou passaram a manter estoques pequenos em consignação na livraria, com uma reposição cautelosa de acordo com as vendas. Em outros casos, os títulos estavam disponíveis por meio de distribuidores.

Vários editores relatam que não receberam os pagamentos pelas dívidas de antes da recuperação judicial. Por isso, eles precificaram as perdas e tomaram precauções na relação com a livraria.

Além disso, as fontes de faturamento tiveram uma mudança de perfil nos últimos anos.
"O varejo online ganhou uma relevância muito grande", diz Marcos Pereira, um dos sócios da Sextante. "Antes da pandemia, um terço das vendas eram online, hoje acho que é meio a meio."

Para Pereira, parte da crise da Cultura veio das dificuldades de se adaptar às mudanças nesse mercado.

"Eu acho que não é possível vender com os descontos que o varejo online pratica. Mas, para o varejo online, o livro não é o principal. A Cultura tentou competir no varejo online com os grandes varejistas, perdendo dinheiro no que era o principal produtor deles, o livro."

No momento, a preocupação maior é com a recuperação judicial das Lojas Americanas, um importante canal de comercialização de livros.
"O baque da Americanas é mais relevante. Parece livro de ficção que tem aquele 'plot twist'", diz Sônia Jardim, do Grupo Record.

O pedido de recuperação da gigante do varejo pegou o mercado livreiro tão de surpresa que houve quem precisasse mandar caminhões de livro voltarem para o estoque já no meio do caminho da entrega.

Além da relevância da operação online da Americanas, a análise no mercado é que as lojas da empresa permitem o contato com leitores que não necessariamente frequentam livrarias.

A varejista tem uma dívida de mais de R$ 85 milhões com pelo menos 76 editoras brasileiras, segundo a lista de credores entregue à 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro.

O maior credor entre os editores é a Somos Educação, a quem a Americanas deve R$ 14,2 milhões. As dívidas com grupos como a Companhia das Letras e a Record são de R$ 7,2 milhões e R$ 6,8 milhões, respectivamente. No caso da Intrínseca, esse valor é R$ 5,9 milhões. Já Sextante e Panini têm R$ 5 milhões a receber cada uma.

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