Uma água vermelho-rubi rompe de tempos em tempos a imensidão branca da Geleira Taylor, no leste da Antártida, e escorre em direção ao Lago Bonney. Conhecida como ‘Cachoeira de Sangue’, o fenômeno não envolve sangue: a salmoura é rica em ferro e ganha a cor de ferrugem quando entra em contato com o oxigênio.
A origem dessa água, porém, ainda guarda mistérios. Um novo estudo encontrou no gelo, na lama e nos sedimentos avermelhados uma comunidade de micróbios com vínculos ancestrais com o mar, apesar de o oceano estar a mais de 32 quilômetros dali.
A descoberta reforça a hipótese de que a salmoura tenha vindo de uma antiga inundação e permanecido presa sob a geleira por cerca de 2,5 milhões de anos. Também mostra como esses organismos conseguiram sobreviver em um dos ambientes mais frios, secos e hostis da Terra.
Veja também que a Antártida é um ‘imã’ de meteoritos e o motivo para isso é surpreendente.
Vermelho de ferrugem
Apesar do nome, a cor não envolve sangue. A água que sai da geleira é uma salmoura rica em ferro. Quando o líquido alcança a superfície e entra em contato com o oxigênio, o metal oxida e ganha o tom avermelhado. É um processo semelhante à formação da ferrugem.
O fluxo ocorre de forma ocasional na extremidade da Geleira Taylor, nos Vales Secos de McMurdo. A cor é tão forte que pode ser observada em imagens de satélite.
O ambiente ao redor, marcado por gelo, lama e sedimentos vermelhos, parece pouco favorável à vida. As amostras mostraram o contrário.
Veja fotos da cachoeira de sangue:
Vida longe do mar na ‘Cachoeira de Sangue’
Os pesquisadores analisaram 167 amostras de água, sedimentos e ar. O material foi recolhido nas Cataratas de Sangue e em áreas próximas, incluindo uma enseada coberta por gelo usada para comparação.
As análises genéticas identificaram muitos eucariotos, organismos formados por células com núcleo, associados a ambientes marinhos. Entre eles estavam diatomáceas, dinoflagelados, haptofíceas e ciliados. Mais de 60% das diatomáceas presentes na lama e nos sedimentos vermelhos tinham vínculos ancestrais com a vida oceânica.
Locais vizinhos apresentaram principalmente comunidades terrestres e de água doce. A diferença indica que a descarga periódica de salmoura cria nas Cataratas de Sangue um pequeno refúgio para organismos ligados ao mar.
Oceano preso no gelo
Milhões de anos atrás, quando a Antártida era mais quente, o oceano pode ter avançado sobre a região oriental do continente. Após o recuo da água, uma parte teria ficado retida sob a Geleira Taylor, que avançava sobre o vale. A reserva pode estar isolada há cerca de 2,5 milhões de anos.
Estudos anteriores já haviam identificado bactérias associadas ao mar na salmoura. Ainda restava a possibilidade de que ventos fortes tivessem carregado sedimentos e organismos até o local. A presença dos eucariotos reforça a hipótese de uma origem oceânica antiga, mas os autores evitam tratá-la como prova definitiva.
Adaptação ao extremo
Os micróbios não apenas sobreviveram longe do ambiente em que seus ancestrais evoluíram. Análises encontraram sinais de atividade em caminhos celulares ligados à fotossíntese, ao reparo das células, às respostas ao estresse e à tolerância ao sal.
Agora, os pesquisadores querem comparar com mais precisão a genética desses organismos com a de comunidades marinhas atuais. As diferenças podem ajudar a estimar quando a salmoura ficou isolada sob o gelo.
Mais de um século depois de a água vermelha chamar atenção pela primeira vez, o ferro já explica a cor das Cataratas de Sangue. Agora, são os micróbios que podem mostrar de onde veio a salmoura e há quanto tempo ela ficou separada do mar sob a Geleira Taylor.








