Frank Sinatra foi um dos cantores mais famosos do século 20, com hits como “My Way” e “New York, New York”. Porém, seu sucesso também era acompanhado de uma mácula em sua imagem: as ligações escusas com a máfia ítalo-americana.
Filho de imigrantes sicilianos, o cantor mantinha relações próximas com figuras mafiosas poderosas, sendo a mais famosa o líder do Chicago Outfit, Sam Giancana. Sinatra nunca foi formalmente julgado ou condenado, mas figurou em diversos documentos do FBI.
“Se você canta em bares, vai conhecer os caras que os comandam.”
uma defesa evocada por Sinatra em várias ocasiões, quando questionado sobre seus contatos no crime organizado.
Ligações com Giancana
A relação de Sinatra com Giancana nunca foi segredo, mas existem dois episódios centrais que permitem observar uma ligação muito profunda entre o cantor e o mafioso.
O primeiro ocorreu em 1963, no episódio do resort Cal-Neva Lodge, do qual Sinatra era dono. Em 1960, o estado de Nevada, onde o resort se localizava, criou uma lista negra de pessoas proibidas de acessar seu território, e no topo dela estava Sam Giancana.
Sam Giancana foi preso mais de 70 vezes ao longo da vida por uma variedade de crimes, embora frequentemente tenha evitado longas penas de prisão (Foto: Unknown author / Wikimedia Commons)De acordo com um memorando do FBI, mesmo com a proibição, Giancana teria se hospedado no resort de Sinatra em 1963, onde recebeu tratamento VIP. Por causa dessa visita, o Gaming Control Board, que controlava os negócios de jogos e cassinos em Nevada, entrou com uma acusação contra Sinatra.
Segundo a KUNR, com base em depoimentos orais de autoridades da época, Sinatra atacou verbalmente Ed Olsen, chefe do conselho, e tentou agir como se fosse “maior que o Estado de Nevada”. Fatos que revelam que o cantor estaria disposto a usar sua influência para proteger Giancana.
O Cal-Neva Lodge & Casino foi comprado por Frank Sinatra em 1960, juntamente com outros investidores, incluindo o cantor Dean Martin e o próprio Sam Giancana (Foto: Doug Letterman / Wikimedia Commons)O custo público e político foi alto para Frank Sinatra, que teve de retroceder em 22 de outubro de 1963. A Gaming Control Board retirou as licenças de jogos das propriedades de Sinatra. O resort foi renomeado como Cal-Neva Lodge e fechou em 2013.
Episódio John Kennedy
As amizades de Frank Sinatra com figuras do submundo também foram levantadas nas eleições de 1960. Supostamente, ele teria sido um canal de comunicação entre o então senador John F. Kennedy e a máfia, por meio de Judith Campbell Exner.
Sinatra teria apresentado Exner a Kennedy durante as campanhas primárias de 60, supostamente pelos interesses de Giancana. Em confissão feita em 1975, Exner alegou que os círculos mafiosos estariam interessados em favorecer a eleição dos democratas, especialmente do senador.
John F. Kennedy (JFK) venceu a acirrada eleição presidencial de 8 de novembro de 1960 contra o republicano Richard Nixon, tornando-se o 35º presidente dos EUA e o mais jovem eleito, aos 43 anos (Foto: DonDrapersCapers / Wikimedia Commons)Porém, a confissão abrangeu não apenas as eleições de 60, mas principalmente eventos ocorridos ao redor de Cuba. Segundo Exner, ela teria feito uma ponte entre a CIA e mafiosos, como Giancana e Johnny Roselli, em tentativas de derrubar Fidel Castro.
Em depoimentos posteriores de 1988, ela acrescentou mais informações à história, como o fato de ter transportado dinheiro e documentos ligados à “eliminação” de Castro. Essa versão dos fatos ainda é alvo de pesquisa até os dias de hoje.
Amizade ou servidão involuntária?
Em entrevista à CBS News, Tina Sinatra disse que o pai cresceu em Nova Jersey “ao redor de gângsters” e que mafiosos controlavam casas noturnas onde ele depois se apresentaria. É um argumento muitas vezes trazido pelo próprio Frank, sobre sua pretensa ligação involuntária com os mafiosos.
Porém, essa tese era contestada por agentes externos, como o agente do FBI Sam Ruffino, que, em entrevista ao History, afirmou: “Esses eram os amigos dele.” E reforçou: “Ele não se importava, ia andar com quem quisesse.”
Poderoso Chefão
Essa má-fama ao redor de Sinatra, mas também de outros cantores ítalo-americanos, foi diretamente adaptada em um personagem da ficção: Johnny Fontane.
Johnny Fontane foi interpretado por Al Martino (Foto: Divulgação / IMDb)Na ficção, Fontane é um cantor de grande renome que utiliza suas amizades no crime organizado para conseguir contratos importantes. Uma prática também atribuída a Sinatra em boatos antigos.
Uma das cenas mais emblemáticas do filme é quando Don Vito Corleone ordena que matem o cavalo de um chefão de Hollywood para incluir seu afilhado, Fontane, em sua nova produção cinematográfica. Segundo o mafioso, essa seria uma “proposta irrecusável” (Foto: Divulgação / IMDb)Essa cena tem eco em um famoso boato ao redor de Sinatra e da produção do filme From Here to Eternity (1953). Apesar de não haver base factual, como apontado por uma pesquisa da The New Yorker, circulou em muitos meios dos anos 1950 a ideia de que a máfia intimidou Harry Cohn, chefe da Columbia Pictures e produtor do filme, para escalar Sinatra.






