A história da Festa do Pocinho: tragédia que virou celebração em São Paulo 

Confraternização no centro da cidade surgiu após a morte de um homem que caiu em um poço

Rua Vieira de Carvalho, onde acontecia a Festa do Pocinho, antes de se transformar em uma avenida

Rua Vieira de Carvalho, onde acontecia a Festa do Pocinho, antes de se transformar em uma avenida | Arquivo Histórico Fotográfico de São Paulo

No final do século XVIII, um homem caiu num poço no caminho entre a praça da República e o largo do Arouche. O poço foi aterrado e colocaram ali uma cruz. Passados 100 anos, o acontecimento acabou dando origem à maior festa do centro da cidade de São Paulo.

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A Festa do pocinho era sem dúvidas a maior festa da Capital no final do século XIX e início do século XX. A celebração acontecia na antiga rua do Pocinho, atual avenida Vieira de Carvalho, no centro de São Paulo, entre o largo do Arouche e praça da República.

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As grandes festas da cidade, até o final do século XIX, eram as festas religiosas. Muitas acontecem até hoje, como as festas de São João, Natal, Páscoa, dia dos mortos.  

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Quase sempre as festas são feitas para homenagear um santo. A quaresma, batizado, nascimento de Jesus, ou mesmo um falecimento trágico, entre outras datas importantes para os cristãos. 

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As procissões eram os grandes eventos no espaço público. Porém, a Festa do Pocinho foi a primeira festa a subverter os motivos religiosos das festas na cidade de São Paulo. 

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Em 1891 o jornal Correio Paulistano publicou uma matéria informando que a prefeitura chegou a colocar uma linha de Bondes puxada por burros exclusivamente para levar as pessoas até a festa do Pocinho.  

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A celebração acontecia sempre no mês de maio e era antecedida por uma novena. As festas religiosas eram onde a população se encontrava na rua durante as procissões e festejos religiosos. 

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A origem da Capela de Santa Cruz do Pocinho

O escritor Miguel Milano, nascido no final do século XIX, escreveu o livro “Os Fantasmas da São Paulo Antiga”, de 1949. Na publicação, ele diz que, quando criança, escutou que a “Festa do Pocinho” era a maior e mais tradicional celebração desde 1850.

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Segundo o autor, a história que se contava na época era que no final do século XVIII um poceiro havia sido contratado para limpar um poço numa rua. 

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Como de costume na época, o homem se enlaçava com uma corda em torno de sua cintura e descia cuidadosamente o poço para a limpeza.

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Mas naquele dia, no meio do trajeto, a corda se arrebentou e o poceiro caiu no fundo do poço, morrendo pouco depois. O compartimento foi aterrado com o corpo dentro e no local foi colocada uma cruz. 

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As pessoas que passavam pela cruz aproveitavam para rezar pela alma do poceiro e pedir uma ação divina. O local foi juntando devotos, romarias, até que a igreja resolveu fazer uma capela cujo nome ficou conhecido como Santa Cruz do Pocinho. 

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O começo da Festa do Pocinho

Um século depois, a cidade cresceu e a quantidade de devotos também. O que era apenas uma romaria virou uma grande procissão com um ritual de devoção que culminou na festa do pocinho. 

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O ritual de devoção à Santa Cruz do Pocinho começava com uma novena, ou seja, com nove dias de orações. No décimo dia, às 4 horas da manhã, na alvorada, era realizada uma oração em frente à capela da Santa Cruz do Pocinho.

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Horas depois, ocorria uma missa na Igreja da Consolação, às 11 horas da manhã. Às 4 horas da tarde saia da Igreja da Consolação uma procissão denominada Santa Cruz, cujo itinerário terminava na capela Santa Cruz do Pocinho. 

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Havia bandas de música e à noite acontecia um grande leilão de prendas seguido por uma fogueira no largo do Arouche.

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O que acontecia na Festa do Pocinho

Para a celebração eram montados dois coretos, um em cada extremidade da rua, e um grande palco para uma orquestra em frente à Capela Santa Cruz do Pocinho.

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Diversas barracas de comida e bebidas eram armadas no trajeto. Havia leilões de animais, venda de artigos diversos, brincadeiras e touradas na praça da República, além de uma grande fogueira no largo do Arouche. No final, uma grande queima de fogos de artifícios. 

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Até que no início do século XX, um cidadão cansado da bagunça publicou um anúncio no jornal questionando o motivo da Festa do Pocinho. Argumentou que era uma festa com motivo desconhecido e que só servia para aumentar as “pensões alegres” no centro.

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Em 1909, Dom Duarte Leopoldo e Silva, o primeiro arcebispo de São Paulo, determinou o fechamento da capela Santa Cruz do Pocinho, por considerar que as festas davam origem ao desvirtuamento da doutrina Católica.

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Segundo ele, não havia mais devoção à Santa Cruz e a capela estaria apenas entregue aos festeiros que se aproveitavam para lucrar em nome da Igreja. 

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Com a demolição da capela, não havia mais motivo para a festa e a prefeitura acabou proibindo confraternizações na avenida Vieira de Carvalho. Assim, a tradição da Santa Cruz do Pocinho foi esquecida. 

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Hoje em dia a Festa do Pocinho permanece apenas na memória dos que ouviram falar dessa celebração e da morte do pobre homem que a precedeu.