Em 1949, funcionários de uma estação meteorológica na Ilha Marion, no sul do Oceano Índico, levaram cinco gatos para conter a infestação de ratos que invadia as instalações.
O que começou como uma solução pontual se transformou, ao longo de décadas, em uma das crises ambientais mais estudadas envolvendo espécies introduzidas em ilhas isoladas.
Sem predadores naturais e com fartura de alimento, os felinos se multiplicaram rapidamente e passaram a caçar aves marinhas que faziam ninhos no solo da ilha.
Por que os gatos causaram um desequilíbrio ambiental?
Com a explosão populacional dos gatos, diversas espécies de aves marinhas vulneráveis passaram a sofrer forte pressão predatória.
As aves marinhas que se estabeleceram na Ilha Marion evoluíram por milhares de anos em um ambiente sem mamíferos terrestres predadores. Isso significa que nunca precisaram desenvolver instintos de fuga ou defesa contra caçadores no solo.
Por isso, muitas dessas espécies constroem seus ninhos diretamente na terra, expostos, sem qualquer proteção natural. É um comportamento comum em ilhas oceânicas isoladas, onde historicamente não havia esse tipo de ameaça.
Esse fenômeno é conhecido entre pesquisadores como uma forma de ingenuidade ecológica. Ela acontece quando animais isolados perdem, ou nunca desenvolvem, respostas de defesa contra predadores que não fazem parte de sua história evolutiva.
Com presas abundantes e nenhuma resistência, a população de gatos cresceu de forma descontrolada. Estima-se que mais de 2 mil felinos viviam na ilha na década de 1970, responsáveis pela morte de centenas de milhares de aves por ano.
As autoridades responsáveis pela ilha iniciaram então uma longa campanha de remoção dos felinos, que combinou captura, ação noturna com holofotes e outras estratégias ao longo de mais de uma década.
Somente em 1991 foi confirmada a retirada do último gato da Ilha Marion, um marco que parecia encerrar o problema.
Remover os gatos não resolveu o problema
Sem os felinos, os ratos voltaram a crescer sem nenhum predador para controlá-los. Esses roedores provavelmente foram para a ilha por meio de embarcações baleeiras do século XIX.
Segundo o projeto Mouse-Free Marion, os ratos passaram a atacar ovos, filhotes e até aves adultas, um comportamento raro em ilhas oceânicas. Atualmente, 19 das 29 espécies de aves que se reproduzem na ilha enfrentam risco significativo por causa desse impacto.
Para tentar restaurar o equilíbrio ecológico, pesquisadores e autoridades sul-africanas planejam o que pode se tornar o maior programa de erradicação de ratos já realizado em uma única ilha. A estratégia projeta o uso de helicópteros com navegação por GPS para distribuir iscas por toda a extensão do território.






