Como diz Jorge Ben Jor, o Brasil é um País tropical. E, quando o assunto é água doce, ele também é um país gigante.
Levantamentos internacionais e estudos sobre governança hídrica apontam que o território brasileiro concentra algo em torno de 12% do volume mundial de água doce, uma fatia que coloca o país no topo do mapa global da disponibilidade hídrica.
Na prática, isso significa que o Brasil reúne milhares de quilômetros cúbicos de água doce renovável. Em uma conta que ajuda a visualizar o tamanho dessa riqueza, um volume na casa de 6,9 mil km³ equivale a cerca de 2,78 bilhões de piscinas olímpicas.
O problema é que abundância não é sinônimo de facilidade. A água doce no Brasil é distribuída de forma desigual: 70% fica na região Norte, 15% no Centro-Oeste, 6% no Sudeste, 6% no Sul e 3% no Nordeste.
Essa assimetria ajuda a explicar por que, mesmo em um país rico em água, faltam segurança hídrica e planejamento em diferentes pontos do território.
Parte da maior reserva está justamente na região menos povoada, enquanto áreas densas e altamente urbanizadas dependem de sistemas de abastecimento mais pressionados, além de estarem sujeitas a períodos de seca e eventos extremos.
A Amazônia concentra o grosso e o rio Amazonas empurra água doce para o Atlântico
Dentro do volume brasileiro, a Amazônia pesa como poucas regiões no planeta. O rio Amazonas e sua rede de afluentes despejam no oceano uma quantidade colossal de água doce: estudos indicam que esse fluxo pode representar algo entre 15% e quase 20% de toda a água doce que chega ao mar a partir dos rios do mundo.
Os maiores aquíferos da América do Sul
Além da água na superfície, o continente guarda um tesouro subterrâneo. Dois sistemas se destacam pelo tamanho e pela importância estratégica: o Aquífero Guarani, compartilhado por quatro países, e o Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), associado às bacias amazônicas e ainda cercado de pesquisas em andamento.
Aquífero Guarani, o gigante que passa por São Paulo
O Sistema Aquífero Guarani é uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do mundo, com extensão estimada em cerca de 1,2 milhão de km² e presença no Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina.
No território brasileiro, ele se espalha por estados como São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A geologia ajuda a entender a qualidade da água: em boa parte, o Guarani está associado a formações areníticas, com porosidade que favorece o armazenamento e espessuras que podem variar na casa de 200 a 450 metros, dependendo da região.
O fôlego do aquífero vem da recarga, que acontece sobretudo nas faixas de afloramento, onde a chuva infiltra no solo e alimenta o sistema ao longo do tempo.
No estado de São Paulo, áreas de afloramento são atravessadas por rios como Tietê, Piracicaba, Mogi-Guaçu, Pardo e Paranapanema, que cruzam regiões importantes para a dinâmica hídrica local.
Com o tempo, a água também pode ganhar mais minerais nas porções profundas, por ficar em contato prolongado com as rochas.
Ainda assim, o fato de o sistema ser dominado por arenitos ajuda a manter, em muitas áreas, uma composição com baixa salinidade quando comparada a ambientes subterrâneos mais ricos em sais.
Sistema Aquífero Grande Amazônia, a maior reserva subterrânea já registrada
O Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA) é apontado por pesquisadores como a maior reserva subterrânea de água doce já registrada em termos de volume potencial, com estimativas iniciais acima de 160 mil km³.
Ele envolve unidades geológicas que ocorrem, no Brasil, em bacias como Marajó, Amazonas, Solimões e Acre, além de conexões hidrogeológicas que extrapolam fronteiras.
Apesar do tamanho, o SAGA ainda é considerado um sistema em caracterização: os próprios estudos destacam que a definição geométrica e parte dos cálculos são preliminares, e que há incertezas sobre detalhes como qualidade da água em camadas mais profundas.
Ainda assim, a relevância estratégica para a Amazônia e para o equilíbrio ambiental é tratada como central.
Quem vem depois no ranking global de água doce
Quando o recorte é o de recursos hídricos renováveis, bases internacionais colocam o Brasil na liderança mundial, seguido por Rússia e Canadá.
Nessa métrica, o total renovável brasileiro aparece na casa de 8.646,7 km³, a Rússia em torno de 4.525,2 km³ e o Canadá com aproximadamente 2.902 km³.
No caso russo, a imagem do país cheio de rios e lagos tem um símbolo que chama atenção: o lago Baikal, frequentemente citado como o maior reservatório de água doce líquida do planeta.
Nos últimos anos, no entanto, pesquisas e reportagens apontaram períodos de níveis mais baixos associados a seca prolongada e questões de regulação do nível da água, acendendo alertas ambientais e econômicos na região.


