A cerca de 61 metros de profundidade, ao sul da Ilha de Wight, mergulhadores encontraram duas grandes partes de um navio que estava desaparecido desde 1908. Tubos de torpedo, caldeiras e instrumentos de navegação ajudaram a confirmar a identidade do HMS Tiger.
O contratorpedeiro da Marinha Real Britânica partiu-se ao meio durante um exercício realizado no Canal da Mancha. Dos 57 tripulantes que estavam a bordo, 35 morreram e apenas 22 conseguiram sobreviver.
Os destroços foram localizados por mergulhadores e pesquisadores do ProjectXplore, que passaram anos consultando telegramas, jornais antigos, diários de bordo e documentos do julgamento realizado após o acidente.]
Colisão durante exercício
Na noite de 2 de abril de 1908, o HMS Tiger participava de uma simulação de ataque com torpedos. A operação ocorreu sem iluminação natural, enquanto diferentes embarcações da frota avançavam pelo Canal da Mancha.
Durante o treinamento, um dos navios disparou um sinalizador. O clarão prejudicou momentaneamente a visão de parte da tripulação. Quando os marinheiros voltaram a enxergar o que estava à frente, o Tiger já havia entrado na trajetória do HMS Berwick.
O cruzador pesava cerca de 10 mil toneladas. O Tiger, por sua vez, tinha aproximadamente 400 toneladas. A diferença de tamanho fez com que o navio menor fosse atingido no centro e cortado em duas partes.
A proa afundou quase imediatamente, levando consigo o comandante e vários tripulantes. A popa permaneceu na superfície por cerca de três minutos antes de desaparecer.
Alguns sobreviventes conseguiram se agarrar a remos, pedaços de madeira e partes soltas do navio enquanto aguardavam ajuda. O rei Eduardo VII enviou posteriormente uma mensagem de solidariedade às famílias das vítimas.
Busca começou nos arquivos
Logo após o acidente, a Marinha britânica procurou os destroços, mas não conseguiu localizar o ponto exato do naufrágio. A posição do HMS Tiger permaneceu desconhecida durante mais de um século.
A investigação recente começou longe do mar. Os pesquisadores reuniram registros da operação naval, depoimentos dos sobreviventes, transcrições do julgamento militar e reportagens publicadas na época.
As informações permitiram delimitar uma área ao sul da Ilha de Wight. O fundo do mar passou então a ser examinado com equipamentos de sonar.
O contorno do navio foi identificado em 2025. Em junho de 2026, mergulhadores exploraram a popa. No mês seguinte, chegaram à proa e registraram estruturas compatíveis com as características do Tiger.
A identificação foi anunciada oficialmente pela Marinha Real Britânica, 118 anos depois do naufrágio.
Instrumentos guardavam pistas
Entre as peças encontradas estava um indicador ligado ao leme. O ponteiro permanecia entre cinco e dez graus a estibordo, o lado direito da embarcação.
A posição sugere que o Tiger não realizou uma mudança brusca de direção para evitar o HMS Berwick nos instantes anteriores ao impacto.
Outro instrumento localizado na popa registrava as rotações do motor. O marcador apontava para potência total, indicando que o navio também não teria reduzido a velocidade antes da colisão.
As descobertas ajudam a reconstruir os últimos movimentos da embarcação, mas não esclarecem por que a tripulação deixou de perceber o cruzador a tempo. Durante o julgamento militar, testemunhas citaram o clarão dos sinalizadores, mas a corte não estabeleceu uma causa definitiva.
Homenagem às vítimas
Os mergulhadores fotografaram, mediram e documentaram os destroços, mas não retiraram objetos do local. O grupo defende que o HMS Tiger seja preservado como sítio histórico e memorial marítimo.
Uma proposta analisada pelo Parlamento britânico prevê proteção automática para embarcações militares a partir do momento em que forem descobertas. A visita de mergulhadores continuaria permitida, mas a remoção de peças dependeria de autorização.
Ao final da expedição, uma coroa de papoulas foi colocada ao lado do leme em homenagem aos 35 marinheiros mortos. Depois de 118 anos sem localização conhecida, o HMS Tiger voltou a ocupar um ponto preciso no mapa e na história naval britânica.






