A cena é clássica de qualquer viagem de férias ou fim de semana no campo: basta o sol começar a se pôr para o “zum-zum-zum” dos mosquitos anunciar que a temporada de caça começou. Instintivamente, a primeira reação de quase todo mundo é pegar o frasco de repelente e se cobrir com uma nuvem de spray protetor.
Mas e se aquele aroma característico que você usa para espantar os insetos estivesse, na verdade, servindo como um convite para o jantar?
Um estudo recente publicado no renomado Journal of Experimental Biology acendeu um alerta inesperado entre cientistas e viajantes.
Em testes de laboratório, pesquisadores demonstraram que os mosquitos possuem uma capacidade surpreendente de aprendizado e podem passar a ver o principal componente dos repelentes mais famosos do mercado como um sinal de que o banquete está servido.
O experimento: como os mosquitos “compraram” o cheiro do DEET
O grande vilão (ou herói incompreendido) dessa história é o DEET, o ingrediente ativo mais utilizado no mundo para formular sprays contra insetos.
Até então, o consenso científico era de que o composto funcionava de forma puramente química: ou ele era tóxico e desagradável o suficiente para forçar o recuo do inseto, ou simplesmente bloqueava os receptores que os mosquitos usam para farejar o calor e o suor humano.
Para testar os limites do comportamento desses animais, uma equipe internacional de cientistas trabalhou com o Aedes aegypti — espécie famosa por transmitir vírus perigosos como os da dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
O processo de “treinamento” dos insetos funcionou em etapas simples, mas com resultados impressionantes:
- A recompensa: Os pesquisadores ofereceram bolsas de sangue aquecido de ovelha para os mosquitos por períodos curtos de 30 segundos.
- O gatilho: Nos últimos 10 segundos de cada refeição, os cientistas borrifavam uma quantidade de DEET no ambiente.
- O resultado: Após repetirem o processo apenas quatro vezes, mais de 60% dos mosquitos passaram a voar ativamente em direção ao cheiro do repelente, tentando alcançar o sangue.
Para levar o teste a um cenário ainda mais real, a pesquisadora Ayelén Nally, coautora do estudo, ofereceu as próprias mãos para os insetos treinados. O resultado assustou: a maioria esmagadora dos mosquitos avançou justamente na mão que estava coberta de repelente.
O perigo mora na hora em que o produto perde a força
Apesar de o resultado parecer saído de um filme de ficção científica, os especialistas fazem questão de acalmar os viajantes. O estudo não significa que você deve jogar seu spray no lixo antes de embarcar para o seu próximo destino de ecoturismo ou praia.
O ponto crítico descoberto pelos cientistas está no momento em que a eficácia do produto começa a cair na pele.
No início da aplicação, a alta concentração de DEET ainda é uma barreira intransponível e altamente desagradável para o olfato dos insetos. O problema real acontece quando o repelente começa a evaporar e perder o efeito.
Se um mosquito conseguir picar você justamente nessa janela de transição — quando o cheiro do DEET ainda está presente, mas já não tem força para repelir —, ele pode fazer a associação cognitiva de que aquele odor fraco significa “comida disponível”.
Como os mosquitos são vetores de doenças que causam mais de um milhão de mortes anualmente no planeta, falhar na proteção não é uma opção aceitável.




