Mulher solta o verbo sobre as consequências de não ter tido filhos

Ela afirma que não se reconheceu nessa expectativa do mundo sobre a maternidade

"Acho que muita gente cresce com a ideia de que ter filhos é o nosso destino biológico", disse

"Acho que muita gente cresce com a ideia de que ter filhos é o nosso destino biológico", disse | Reprodução/Youtube

Maria Coffey decidiu não ter filhos há décadas, mas diz que a escolha continua presente no dia a dia. Agora, na casa dos 70, ela revisita o tema com franqueza e sem atalhos fáceis.

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No livro Instead: Navigating the Adventures of a Childfree Life, lançado em 2023, a autora descreve como é envelhecer fora do roteiro esperado. Ela pesa liberdade, dúvidas e o custo emocional do caminho não escolhido.

O ponto central não é uma resposta definitiva, e sim um dilema comum. Quando a vida muda, a pergunta “e se?” volta com força, sobretudo diante de perdas, acidentes e medo de solidão.

Quando o mundo trata a escolha como destino

Em conversa por telefone a partir da Catalunha, Coffey resume uma pressão que atravessa gerações. “Acho que muita gente cresce com a ideia de que ter filhos é o nosso destino biológico”, disse.

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Ela afirma que não se reconheceu nessa expectativa e, por isso, precisou sustentar uma decisão que nem sempre é entendida. Ainda hoje, a escolha pode virar assunto em rodas de amigos e família.

Coffey conta que não queria a vida estável que a mãe projetava para ela. “Eu não queria a vida que minha mãe queria para mim, uma vida estabelecida, segura, com plano de aposentadoria e um emprego fixo. Eu sabia que queria um tipo de vida diferente.”

Segundo ela, esse desejo por outro caminho não se encaixava no modelo que muitos consideravam “o normal”. Ao mesmo tempo, foi o que guiou escolhas de trabalho, moradia e rotina ao longo dos anos.

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Experiências que mudaram o jeito de olhar para o futuro

Nascida na Inglaterra, filha de pais irlandeses católicos da classe trabalhadora, Coffey se descreve inquieta desde cedo. Ao olhar para trás, ela aponta eventos que ajudaram a moldar seu caminho.

No início da vida adulta, ela quase se afogou e passou a sentir urgência de viver com intensidade. Depois, a morte do primeiro grande amor em um acidente de montanhismo ligou amor e perda em sua memória.

Na casa dos 30, Coffey foi para a costa oeste do Canadá, conheceu o marido, Dag Goering, e os dois seguiram uma vida de viagens. No percurso, escreveram, fotografaram e trabalharam em diferentes empregos.

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Em comunidades remotas, ela relata ter sentido o peso do julgamento. “Quando eu viajava muito para lugares remotos, foi quando me fizeram sentir meio estranha em comunidades onde a escolha de não ter filhos é completamente inconcebível.”

Mais tarde, a cobrança veio em forma de pergunta social. “Depois… as perguntas eram: você teve filhos? Você tem netos? E vinha aquela enorme perplexidade.”

Amor inesperado e a descoberta de que ninguém se protege da perda

Em uma viagem ao Vietnã, Coffey conheceu uma menina chamada Bac, que vivia na rua, e tentou ajudá-la. Ali, ela diz que foi pega de surpresa por um afeto forte e imediato.

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Com o tempo, Coffey conclui que não ter tido um filho não blinda ninguém contra dor emocional. Vínculos surgem de formas diferentes, e perdas também, mesmo quando a vida foge do roteiro tradicional.

Coffey chama esse puxão do caminho não vivido de “counterfactual curiosity”. Para ela, é a curiosidade pelo que não aconteceu, algo comum em escolhas irreversíveis, como cidade, carreira e estilo de vida.

Esse “e se?” ganhou peso quando Dag sofreu um grave acidente de bicicleta. Coffey se viu pensando se teria sido reconfortante ter um filho com ele, sensação que o casal discutiu longamente.

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Velhice, medo e a conversa que mudou o tom

Em um momento de honestidade, ela relembra a pergunta que fez ao marido. “Eu disse ao Dag: ‘você acha que a velhice seria mais fácil e suportável se tivéssemos filhos?’ E ele disse: ‘acho que é como lançar um foguete para o futuro com um pedacinho de você preso nele’. De certo modo, você não morre de verdade”, diz Coffey.

Para ela, a imagem resume o que a velhice pode despertar: a busca por continuidade e a dúvida sobre apoio no futuro. Ainda assim, ela evita tratar isso como garantia, e sim como reflexão.

Para quem está decidindo, o relato de Coffey não vira manual, mas ajuda a organizar o pensamento. Ela insiste que não existe caminho sem risco, nem promessa de final perfeito.

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  • Repare se a vontade vem de você ou da expectativa de alguém.
  • Considere o estilo de vida que você quer sustentar ao longo dos anos.
  • Aceite que dúvidas podem existir mesmo depois de uma boa decisão.

Risco de um lado e risco do outro

Quando jovens perguntam hoje, Coffey responde de forma direta. “Eu costumo dizer que, quando mulheres jovens me fazem hoje a pergunta do bebê, eu respondo que é tudo um risco. Não ter um filho é um risco, ter um filho é um risco. A vida é um risco.”

Ela reforça o argumento lembrando que a parentalidade também pode carregar perdas profundas. “Eu conheço pessoas cujos filhos morreram, e isso é a pior coisa.” E completa: “Há tanto potencial de sofrimento”, diz Coffey.

Mesmo com medos e perguntas em aberto, Coffey não transforma a própria escolha em bandeira. “Você só precisa seguir o seu coração”, diz ela.

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E completa: “O que quer que te puxe, vá na direção disso.”