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Atualmente cerca de 3,5 milhões de alunos da rede pública de ensino básico estão em aula à distância no Estado
Atualmente cerca de 3,5 milhões de alunos da rede pública de ensino básico estão em aula à distância no Estado
Foto: ARQUIVO PESSOAL

Alunos relatam dificuldade no ensino à distância na Grande SP

Dia a dia da aula online tem dificuldades como falta de internet, adequação da rotina, além da defasagem no aprendizado; mais de 1 milhão de alunos estão matriculados na educação básica na região metropolitana de SP

Há cerca de 60 dias a rotina de Ketley Mariano, de 10 anos, mudou completamente após ela ter que deixar de ir à escola por causa da pandemia do novo coronavírus. Aluna do 5º ano do ensino fundamental da rede pública de Santo André, no ABC Paulista, a estudante tenta se adaptar ao ensino à distância e diz sentir falta dos amigos e das aulas presenciais.

“Estou com um pouco de dificuldade para entender a matéria, principalmente pelo fato dos professores não estarem na nossa frente explicando o conteúdo. Estou tentando me adaptar”, diz a estudante da Escola Municipal Profa. Mariângela Ferreira Aranda Fuzetto, na Vila Junqueira.

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Ketley Mariano ao lado da irmã Kimberly Mariano em Santo André, no ABC Paulista (Foto: Divulgação)

Ketley se junta aos mais de 3,5 milhões de alunos da rede pública de ensino básico que também estão no ensino remoto no Estado. Só na região metropolitana são mais de 1 milhão de estudantes. Falta de equipamentos, dificuldades para acessar as plataformas criadas pelas prefeituras, falta de interações e problemas com internet são as principais queixas dos pais e alunos.

“Estou conseguindo fazer as atividades, mas às vezes a internet oscila e isso atrapalha. Acessamos a plataforma, a professora também manda lições pelo e-mail e faz as correções pelo WhatsApp. Estou sentindo falta das professoras na hora de tirar as dúvidas, mas está sendo legal a experiência. Desafiadora”, diz a aluna de Embu das Artes, Beatriz Soares Barros, de 10 anos.

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Beatriz Soares de 10 anos realizando as atividades online em Embu das Artes (Foto: Divulgação)

Para especialistas, as dificuldades refletem a forma repentina como o ensino à distância foi implementado. “Temos fatores problemáticos, por exemplo, nem todos os alunos possuem computadores, acesso à internet e muitas vezes os próprios professores também não estão preparados. É um grande desafio. É necessário toda uma preparação pedagógica por parte das administrações para que as aulas se tornem interessantes e atrativas”, diz o professor Sandro Caldeira, especialista em alta performance humana e estudioso na área da neurociência da educação.

Ainda de acordo com Caldeira, haverá uma defasagem no ensino dos alunos. “Teremos uma perda. Ensino remoto envolve uma parceria entre pais, alunos e professores. É algo complexo. Eu digo que é preciso planejamento, material didático e um preparo. Quando alguma etapa não é cumprida o aluno acaba prejudicado”, reforça.

Assim como Caldeira, a escritora e educadora Janine Rodrigues acredita que não existia outra alternativa para o momento. “O ensino à distância realmente é um grande desafio, mas era o que poderia ser feito agora. O problema foi essa mudança drástica acontecer da noite para o dia e pegar todos de surpresa. A tecnologia não concorre jamais com o professor, ela é uma ferramenta que potencializa o aprendizado. Nossas escolas jamais serão substituídas. A escola é uma parcela do que acontece na sociedade, portanto os alunos precisam ter essa vivência escolar”, complementa Janine.

Enquanto o ambiente escolar ainda é virtual, as prefeituras têm se adaptado para medir a participação dos alunos e buscar os que têm dificuldade no acesso à internet. “Temos dado todo o suporte os alunos e conseguimos também rastrear se eles estão acessando o site. Os alunos que não tem acesso à internet ou computador, os pais também podem ir até a escola buscar as atividades. Realmente é algo inédito e que desafiou todas as prefeituras. Mas, acredito que tudo que poderíamos fazer nós estamos fazendo”, finaliza a secretária em exercício de Educação de Santo André, Gilzane Macchi.

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"Acredito que tudo que poderíamos fazer nós estamos fazendo", diz a secretária Gilzane Macchi (Foto: Divulgação)

Um em cada 4 não tem internet no País

O acesso à internet no Brasil avança, mas revela diferenças sociais importantes. Divulgada na última nesta terça-feira, a mais recente versão do TIC Domicílios, estudo que mede os hábitos e comportamento de usuários da internet brasileira, mostrou avanço no acesso da população brasileira de quatro pontos percentuais em relação a 2018, chegando 74% (ou 133,8 milhões). Por outro lado, isso significa que ainda um em cada quatro brasileiros não acessa a rede mundial de computadores.

No perfil de acesso, as diferenças por região, gênero e raça são pequenas. Elas são acentuadas por classe social (95% na classe A, 93% na classe B, 78% na classe C e 57% nas classes D e E) e educação (97% entre os com ensino superior, 89% entre os com ensino médio, 60% entre os com ensino fundamental e 16% entre os com educação infantil e analfabetos).

Realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), a pesquisa mostra ainda que 58% dos internautas brasileiros se conectam exclusivamente pelo telefone celular - em 2014, 80% dos usuários usavam computadores para se conectar, mas esse índice caiu para 42%. Mais gritante: 85% dos usuários das classes D e E se conectam exclusivamente pelo aparelho móvel.

Veja entrevista na íntegra com o secretário de educação de Embu das Artes, Pedro Ângelo

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“As aulas remotas são ainda um grande desafio, nunca haviam sido implementadas no Brasil”, diz o secretário Pedro Ângelo

Como você avalia o desempenho a aplicação das aulas remotas?

As aulas remotas são ainda um grande desafio, nunca haviam sido implementadas no Brasil, tínhamos a opção de adiantar as férias escolares por mais trinta dias, porém, avaliamos o papel fundamental da educação pública nesse período de crise. Mesmo diante da complexidade que é a de educação remota e do pouquíssimo tempo para colocá-la em prática, estamos avançando de maneira significativa. A base de nosso trabalho é o material impresso, justamente para que se garanta igualdade a todos os estudantes da rede. De maneira complementar às atividades impressas os professores estreitam os canais de comunicação com os estudantes e as famílias, com o objetivo de orientar e mediar o processo. Diante de todo o contexto em que vivemos acreditamos que a presença da escola é o fator de maior importância, a mensagem de que a escola está ativa, mesmo que com atividades remotas, isso ajuda a superação da crise, diminui a solidão e o sofrimento social que a crise impõe. Mesmo que neste momento o rigor metodológico seja mais no foco de questões humanitárias, o papel da educação pública de Embu das artes tem sido fundamental para que as famílias consigam dar conta dos desafios impostos. Os laços tem se fortalecidos, as redes sociais ficam povoadas de mensagens de amor e carinho, relatos de saudade, vídeos de crianças fazendo as atividades propostas, isso revela o sucesso e a importância de se assumir protagonista no momento de crise.

Os alunos e pais estão manifestando alguma opinião ou impressão?

Há um sentimento de angústia muito grande na sociedade, boa parte causado pelo processo de isolamento social, sofrimento com doentes e mortos e também pelo agravamento da crise econômica. As famílias enfrentam a dificuldade de proporcionar o processo de ensino aprendizagem, uma tarefa que exige preparo, que os pais não têm, muitos deles, a grande maioria, jamais se viu por tanto tempo tendo que ser o orientador do processo de aprendizagem da criança. Portanto as famílias também estão se reinventando, estão descobrindo o real significado e valor do trabalho dos professores e da escola. Dessa forma as atividades enviadas pela escola são uma enorme ferramenta de apoio, a possibilidade de interação com os professores através de plataformas digitais também. Obviamente que há muita dificuldade nesse processo para todos os envolvidos seja o professor, o familiar ou o estudante, todos estão passando por um processo de reinvenção seja profissional, ou pessoal, e o que é mais importante é que essa reinvenção fortalecerá os laços com a Educação Pública, graças às atividades propostas no Programa Aprendendo em Casa.

 

O ensino à distância está alcançando todos os estudantes? Há dificuldade de acesso à internet ou de aparelhos?

A Educação Remota da forma como é implantada pelo Programa Aprendendo em Casa oferece oportunidades iguais a todos, uma vez que disponibiliza material impresso a ser retirado pela família na escola e para ser executado pela criança em casa. De maneira complementar as ferramentas tecnológicas utilizadas ainda carecem de ampliação tanto do acesso como da forma de utilização, por professores e estudantes, porém é um processo que está avançando, e vem se aprimorando a cada dia. Já existem escolas na rede com importantes trabalhos já executados através de plataformas de ensino digital. A Secretaria está fazendo uma coleta de dados para levantamento da quantidade de estudantes sem acesso às plataformas, para direcionar o trabalho de maneira a atender essas necessidades utilizando meios alternativos como televisão, aparelhos de som etc.

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