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O presidente russo, Vladimir Putin
O presidente russo, Vladimir Putin
Foto: ALEXEI NIKOLSKY/ASSOCIATED PRESS

Tanques russos fazem exercício de tiro real antes de reunião na Otan

Reunião deve ser marcada para conversa sobre situação da Ucrânia

Um dia após conversas largamente infrutíferas com os Estados Unidos e na véspera de uma rara reunião com a Otan para discutir a situação na Ucrânia, a Rússia iniciou um exercício militar com munição real perto da fronteira com o atribulado vizinho.

A manobra militar inclui, segundo a agência russa Interfax, 3.000 soldados, tanques T-72B3, blindados de transporte BMP-2 e peças de artilharia em regiões próximas da Ucrânia, como Rostov, e perto de Belarus. Exatamente o tipo de armamento que seria usado em uma invasão da Ucrânia, cujo temor é objeto de intensa movimentação diplomática.

O exercício destaca pessoal e equipamento envolvidos na grande movimentação de 100 mil homens feita por Vladimir Putin a partir de novembro, que gerou a acusação ocidental de que ele preparava um ataque para apoiar rebeldes pró-Rússia no Donbass (leste ucraniano).

Banal em outros tempos, o exercício foi desenhado para colocar pressão sobre o Ocidente. Na segunda (10), representantes russos e americanos passaram sete horas reunidos para debater o caso da Ucrânia e outras questões de segurança europeia em Genebra.

Nas conversas, os EUA deixaram claro que não aceitam o ultimato de Putin para retirar forças da Otan de países-membros que aderiram depois de 1997, ou seja, voltar às fronteiras do tempo da Guerra Fria, sem incluir nações que faziam parte da esfera soviética.

Também foi recusada a ideia de barrar novas adesões, nominalmente de países como a Ucrânia, Geórgia e Moldova, que faziam parte da União Soviética (1922-1991) e que para o Kremlin ficar satisfeito estrategicamente têm de ao menos ser neutras, quando.

Uma porta de conversa se manteve aberta com questões envolvendo posicionamento de mísseis de alcance intermediário e acerca de clarificação sobre a natureza de exercícios militares de lado a lado.

Nesta quarta (12), outra delegação russa vai a Bruxelas para se encontrar com a cúpula da Otan, aliança militar de 30 países liderada pelos EUA. Não se espera um avanço bombástico, mas o fato de que hoje os contatos diplomáticos entre o bloco e Moscou estão cortados já faz a reunião ser um fato positivo em si.

O encontro ocorrerá no âmbito do chamado Conselho Otan-Rússia, que não se reúne desde 2019.
Na segunda, os russos repetiram o que Putin já dissera, que não pretende invadir. Na prática, seria uma empreitada bastante difícil, diferente da anexação de uma área majoritariamente russa, como o presidente promoveu na Crimeia em 2014.

Naquele ano, temendo que o novo governo ucraniano aderisse à estrutura militar ocidental, Putin promoveu não só a absorção da península, mas fomentou a guerra civil que na prática separou dois pedaços do leste ucraniano do controle de Kiev.

Com os exercícios, o Kremlin dá um sinal de prontidão enquanto as conversas ocorrem. Seu porta-voz, Dmitri Peskov, afirmou nesta terça que "não há razão para otimismo" na rodada diplomática, adicionando um tom sombrio.

Putin saboreia uma vitória estratégica na Ásia Central, onde ajudou o autocrata do Cazaquistão a reprimir uma grave revolta na semana passada com o envio de tropas de sua própria aliança militar, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva.

Sentido a pressão, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, afirmou nesta quarta que agradece tanto a russos quanto a americanos pelos esforços, e que "é hora de concordar sobre um fim para o conflito". Ele conclamou a volta do chamado formato Normandia de negociações, sentando à mesa com Putin, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o novo premiê alemão, Olaf Scholz.

"Nós estamos preparados para tomar as decisões necessárias numa cúpula com os líderes dos quatro países", afirmou. Não houve resposta do lado russo, que está à espera das negativas que o Ocidente lhe dará nesta semana para propor o próximo passo –que deverá ser tentar extrair concessões de Kiev bancado por suas tropas.

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