Eleições 2026: mais de 60% dos eleitores planejam usar IA para pesquisar candidatos

Estudo do Projeto Brief aponta forte abertura tecnológica, mas acende alerta para a incapacidade do público de distinguir conteúdos reais de clonagens digitais

Eleitores utilizando IA durante as Eleições

Apesar de admitir uso, eleitores ouvidos pela pesquisa garantem que IA será utilizada com cautela / Ilustração com IA/Gazeta de S. Paulo

A corrida eleitoral deste ano terá o comportamento dos eleitores profundamente transformado pela tecnologia. Uma sondagem inédita desenvolvida pelo Projeto Brief aponta que 62,9% dos cidadãos cogitam recorrer a plataformas automatizadas para mapear o histórico e as propostas dos candidatos que disputam o pleito de 2026, consolidando o papel definitivo das novas ferramentas digitais na disputa política.

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De acordo com os dados apresentados pela plataforma de comunicação e dados políticos, os eleitores que pretendem navegar nessa tecnologia preferem adotar cautela.

Cerca de 40,5% dos entrevistados disseram que vão interrogar os algoritmos, mas pretendem cruzar as respostas com outros canais. Outros 22,4% tratam os robôs de conversação com o mesmo peso de qualquer outra fonte informativa.

Na direção oposta, a preferência pelos meios tradicionais ainda se mantém, já que 23,2% da população fazem questão de se informar por debates na televisão (TV) e reportagens jornalísticas, enquanto um grupo de 13,9% crava que não deposita nenhuma credibilidade na tecnologia para embasar decisões políticas.

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A armadilha das respostas prontas

Delegar aos robôs o papel de guia informativo já faz parte do cotidiano do país. O levantamento, repercutido originalmente pelo Correio Braziliense, mostra que 44,3% dos internautas já fazem buscas cotidianas por meio de ferramentas inteligentes e 38,3% usam os sistemas para fazer checagem de fatos.

Na prática, quase três a cada quatro usuários frequentes de inteligência artificial (73,8%) se dizem dispostos a estender esse hábito para a corrida eleitoral.

Segundo Carol Luck, que lidera o Projeto Brief, esse comportamento acarreta riscos severos devido às limitações e falhas estruturais que as próprias empresas de tecnologia carregam.

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“As respostas geradas por IA não são 100% confiáveis, e isso é algo que as próprias plataformas sinalizam. Nem sempre fica claro de onde veio a informação, quais fontes foram consultadas ou se os dados estão atualizados. Em ano eleitoral, isso tem peso: a decisão de voto pode passar por respostas automatizadas que induzem ao erro”, adverte Luck.

O nó da desinformação e o abismo geracional

Para medir o tamanho do problema, a pesquisa testou o discernimento dos cidadãos ao confrontá-los com materiais autênticos e simulações em vídeo geradas digitalmente. O diagnóstico apontou para uma “crise de autenticidade”, evidenciando que a maior parte das pessoas se perde diante de mídias artificiais.

Ao assisterem a um conteúdo inteiramente forjado por computação gráfica, meros 45,3% dos participantes perceberam o truque tecnológico. Outros 33% juraram que o material era legítimo, e o restante não soube responder. O curto-circuito cognitivo persistiu diante da gravação verdadeira: 33,9% dos indivíduos desconfiaram do vídeo real, achando que se tratava de uma manipulação por IA, enquanto apenas 40,7% souberam cravar a autenticidade da cena.

Esse gargalo fica ainda mais evidente quando segmentado pela idade. No grupo de jovens entre 18 e 29 anos, o índice de acerto na identificação do material falso bateu 58,2%. Na outra ponta, entre idosos a partir dos 61 anos, o aproveitamento desaba: somente 20,9% pescaram a montagem digital, e expressivos 47% asseguraram que a mentira era verdade.

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“O recorte por idade mostra uma vulnerabilidade importante para públicos mais velhos, especialmente diante de conteúdos plausíveis, com personagens reconhecíveis e circulação em ambientes de confiança pessoal, como grupos de WhatsApp”, destaca a coordenadora do estudo.

Luck chama atenção também para o comportamento dos mais novos, que, no afã de caçar fraudes, erraram o julgamento e carimbaram 39% do vídeo verdadeiro como se fosse montagem de robô. “A suspeita pode virar excesso de desconfiança”, pondera.

Quem deve policiar a tecnologia?

Na avaliação dos pesquisadores, o grande desafio institucional deste ano será duplo: frear a disseminação de fraudes que simulam a realidade e, ao mesmo tempo, proteger a credibilidade de fatos reais que a população tende a encarar com ceticismo. Para 71,6% dos participantes, os algoritmos têm força suficiente para mexer no ponteiro das urnas.

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Ao serem provocados sobre quem deve capitanear a vigilância e a punição contra abusos tecnológicos na política, a Justiça Eleitoral despontou na liderança: 51,6% indicaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como xerife do setor. Na sequência das respostas, apareceram o governo federal (42,1%), as redes sociais e plataformas digitais (38%), o próprio cidadão (24,2%) e entidades da sociedade civil organizada (17,8%).

Metodologia do estudo

O levantamento nacional do Projeto Brief colheu depoimentos de 2.483 pessoas por meio de convites em redes sociais, entre 25 e 29 de abril de 2026. A engenharia da pesquisa dividiu o público de forma controlada, na qual 1.000 voluntários integraram a base neutra, 723 assistiram apenas à peça manipulada por IA e 760 avaliaram unicamente a gravação original.