Raio-X do SUS: verbas de emendas bancam computadores e ar-condicionado enquanto postos carecem de aparelhos médicos

Levantamento do Ieps revela que quase 66% dos itens comprados por parlamentares em 2025 foram para escritórios; construção e ampliação de postos de saúde despencou nos últimos anos.

Muito além da superfície, o complexo do Congresso Nacional depende de uma rede técnica que assegura segurança, logística e operação diária (Foto: Agência Senado)

Levantamento técnico aponta que maioria dos equipamentos comprados com emendas da saúde foi destinada a setores de escritório e frotas de veículos (Foto: Agência Senado)

Quem busca atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do país pode estar convivendo com uma realidade financeira paradoxal: o dinheiro das emendas parlamentares destinadas à saúde tem financiado mais mobiliário de escritório e veículos do que instrumentos médicos para exames e consultas do dia a dia. A constatação é do estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps).

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Dos R$ 491 milhões destinados à saúde, apenas 12% foram gastos com aparelhos médicos básicos, revela o estudo da Ieps.

Escritório em alta, equipamentos médicos em baixa

Segundo o relatório do Ieps, em 2025, 65,7% dos equipamentos comprados com verba de emendas individuais pertenciam à classe de “Infraestrutura e Material de Escritório”. Em números absolutos, dos 95.598 itens adquiridos, 62.788 serviram para reestruturar ambientes administrativos.

A divisão dos R$ 491 milhões alocados por emendas individuais na atenção primária mostra que:

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  • Frota de veículos: focou a maior fatia dos recursos, somando R$ 263,5 milhões (54% do total). O item de maior valor ficou com veículos de passeio que custaram R$ 220 milhões.
  • Móveis e TI: ficaram com R$ 113,9 milhões (23%). O item de maior valor foram compras de computadores, R$ 34,2 milhões.
  • Aparelhos médicos básicos: ficaram com apenas R$ 58,8 milhões (12%). O item de maior valor foi o de cadeiras odontológicas, R$ 25,6 milhões.

Em informação obtida pela Folha de S. Paulo, Marcella Semente, especialista em relações institucionais do Ieps e uma das autoras do estudo, alerta que o uso das emendas para a compra de veículos, pode estar vinculada a um “subfinanciamento crônico da rede, e não necessariamente de má gestão local”.

O estudo ainda alerta que hoje não é possível identificar se o financiamento desses equipamentos está alinhado às necessidades de saúde de cada município.

Encolhimento na infraestrutura de atendimento

O levantamento expõe a mudança no comportamento dos congressistas ao longo dos anos. Se em 2016 cada R$ 100 de emenda gerava R$ 64 aplicados diretamente em novas UBSs e grandes equipamentos, em 2024 essa fatia caiu para apenas R$ 10 a cada R$ 100. O restante do dinheiro passou a ser pulverizado para manutenção diária e compras pontuais.

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Ainda assim, o SUS depende fortemente dessa fonte: em 2024, de um orçamento de R$ 10,3 bilhões para investimentos na saúde pública, 22% vieram de emendas do Legislativo.

O abismo entre os municípios

A verba não chega de forma igualitária à população. No período de 2023 a 2025, 70% das cidades brasileiras receberam alguma emenda de investimento em saúde. O Centro-Oeste teve a maior proporção de cidades beneficiadas (85%), enquanto o Nordeste registrou o menor índice (59%).

A diferença no valor por morador atinge extremos: enquanto o município de Praia Norte, no Tocantins, recebeu R$ 1.577 per capita (17 vezes acima da média do país), as cidades de Paulista (PE) e Maracanaú (CE) receberam irrisórios R$ 0,40 per capita.

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O estudo também aponta que cidades maiores conseguem liberar verbas mais facilmente: 84% dos municípios com mais de 50 mil habitantes foram contemplados, contra apenas 65% daqueles com menos de 10 mil moradores.