A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, nessa segunda-feira (12/1), o primeiro medicamento injetável a cada seis meses que previne a contaminação pelo HIV em quase 100% dos casos.
O lenacapavir foi desenvolvido pelo laboratório Gilead Sciences e será vendido sob o nome comercial de Sunleca. O fármaco já havia recebido o aval nos Estados Unidos e na Europa.
O órgão regulador brasileiro deu sinal verde para o medicamento em duas indicações. A primeira é como profilaxia pré-exposição (PrEP), um medicamento feito para prevenir a infecção de pessoas que não vivam com o HIV, tenham idade acima de 12 anos, peso superior a 35 kg e que tenham testado negativo para o vírus.
A segunda é para pessoas que vivam com a doença, já tenham realizado outros tipos de tratamento e apresentem quadros de resistência contra outras classes virais.
Uma nova alternativa eficaz
A medicação é considerada uma inovação por exigir apenas duas aplicações ao ano para garantir uma eficácia de quase 100% dos casos contra o HIV.
Outra opção para a prevenção da doença é por meio de um PrEP por comprimidos diários, disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2017. Embora reduzam para quase zero o risco de infecção, o fato de precisarem ser tomados todos os dias torna a opção menos viável para a população.
Em julho do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) começou a recomendar o lenacapavir como parte de um plano combinado, misturando diferentes ferramentas, como uso de preservativo, testagem e o próprio PrEP.
A organização destacou na época que a medida se tratava de “uma ação política histórica que poderia ajudar a remodelar a resposta global ao HIV”.
Antes da aprovação, a PrEP mais avançada a oferecer uma prevenção de longa data era o cabotegravir, da GSK. A medicação foi aprovada pela Anvisa em junho de 2024, mas precisa ser aplicada a cada dois meses e possui um custo elevado.
Já o lenacapavir aparece como uma alternativa promissora por envolver aplicação semestral e uma alta eficácia.
Como funciona uma PrEP?
A medicação reduz drasticamente os riscos de contaminação, funcionando como um “escudo protetor”.
Os antirretrovirais impedem que o HIV se estabeleça e se multiplique pelo corpo após uma exposição ao vírus.
Entre os tipos de PrEP estão as de consumo diário (um comprimido por dia) e a PrEP sob demanda (tomada antes e depois do sexo).
Valores e circulação
Apesar de uma primeira impressão positiva, a Gilead ainda não deu uma previsão de lançamento e dos valores do lenacapavir. O preço máximo precisa ser definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).
A disponibilidade gratuita no SUS, como ocorre com os comprimidos, deve ser avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e pela análise do Ministério da Saúde.
Nos Estados Unidos, os valores do tratamento ultrapassam os US$ 28 mil (R$ 150 mil na cotação atual). Esse fator fez com que nenhum sistema de saúde tenha conseguido implementar o lenacapavir até agora.
Em outras partes do mundo, a Gilead chegou a anunciar acordos com fabricantes para produzir e vender versões genéricas do medicamento em 120 países com altos índices de contaminação por HIV e com recursos limitados, principalmente os de baixa e média renda. A venda só pode acontecer depois do aval dos órgãos reguladores de cada nação.
Entretanto, o Brasil ficou de fora, incluindo outros países da América do Sul, Europa e Ásia. Especialistas apontam que um dos principais desafios para a circulação em território nacional é a informação, já que, segundo estudos, muitas pessoas em situação maior de risco de contaminação não sabem da existência dos PrEP e não conseguem acessar os serviços de saúde.
Por que não é uma vacina?
Mesmo sendo uma opção injetável, o medicamento não induz o sistema imunológico a produzir anticorpos e células de defesa contra o HIV, mas sim uma resposta ativa, funcionando apenas como uma forma de evitar a replicação do vírus.
Já a vacina é feita com o material genético do vírus para que o sistema imune o reconheça e, a partir do fragmento, comece a produzir defesas contra a doença.
