O Chile se tornou o segundo país do mundo a eliminar a hanseníase – atrás apenas da Jordânia -, de acordo com verificação oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
Enquanto a região avança para erradicar a doença, o Brasil — que integra o mesmo continente que o país chileno — registrou 22.129 casos novos em 2024, uma taxa de 10,41 por 100 mil habitantes.
Segundo o Boletim Epidemiológico Especial de Hanseníase, que apresenta a análise do perfil epidemiológico e operacional da doença no Brasil entre 2015 e 2024, os dados indicam que a enfermidade permanece como um importante desafio à saúde pública, esbarrando diretamente na desigualdade social.
Para entender como a situação afeta o País e quais os meios de combate disponíveis para a infecção bacteriana, a Gazeta conversou com o clínico geral da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Thiago Piccirillo.
Eliminação da Hanseníase no Chile
Para uma doença neste nível ser considerada “eliminada” de algum País, ela precisa seguir algumas exigências impostas pela OMS.
Entre elas: interrupção da transmissão por 5 anos, ausência de novos casos em que a transmissão ocorre dentro do próprio território por, no mínimo, 3 anos consecutivos após essa interrupção e capacidade comprovada de detectar e responder rapidamente a casos trazidos de fora.
Neste cenário, o Chile conseguiu atingir esses pontos e teve a hanseníase zerada em seu território, mantendo uma vigilância ativa e programas voltados para a eliminação da doença, mesmo diante do baixo número de casos.
De acordo com o Dr. Thiago Piccirillo, o sucesso do vizinho realça o principal gargalo brasileiro: a detecção.
“O Chile eliminou a hanseníase atingindo a meta de menos de um caso por 10 mil habitantes. No Brasil, o problema não é o tratamento — que sabemos que é eficaz e gratuito pelo SUS —, mas o diagnóstico tardio e a baixa busca pelos contatos. As pessoas que convivem com alguém diagnosticado raramente procuram o serviço de saúde porque se sentem bem, e isso mantém a bactéria circulando”, explica o médico.
Casos no Brasil
Em comparação com o Chile, o Brasil esbarra em dados que acionam um alerta para a saúde pública.
Segundo o Boletim Epidemiológico Especial de Hanseníase, divulgado pelo Ministério da Saúde em 29 de janeiro deste ano, o país registrou 301.475 casos entre os anos de 2015 e 2024.
Deste total, 72% dos casos novos registrados em 2024 ocorreram entre pessoas autodeclaradas pretas ou pardas, o que, de acordo com o relatório, evidencia “a associação da hanseníase com contextos de vulnerabilidade social”.
Para o médico, além do diagnóstico tardio, outros problemas residem na desigualdade social e em falhas de comunicação com os afetados, fatores que contribuem para a propagação da infecção bacteriana no Brasil.
“O grande ‘X’ é a questão das desigualdades sociais, o acesso limitado à saúde e a falta de informação. O médico da atenção básica e o Programa de Saúde da Família têm um papel fundamental na educação. É preciso explicar que a doença tem cura, falar sobre os sinais e, ao fazer um diagnóstico, olhar imediatamente todas as pessoas que convivem com aquele paciente para interromper a transmissão na comunidade”, conclui Piccirillo.
Entenda a doença
A hanseníase é uma doença infecciosa, crônica e curável, causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Ela afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo causar danos severos se não for tratada.
A transmissão ocorre pelas vias aéreas (fala, espirro ou tosse) por meio do convívio prolongado com pessoas doentes que não estão em tratamento.
O principal sintoma é o aparecimento de manchas que apresentam perda de sensibilidade ao calor, ao toque e à dor. Ao perceber esses sinais, a orientação é procurar a unidade de saúde mais próxima para diagnóstico e início do tratamento gratuito via SUS.
