Abel Ferreira poderia ser um treinador protocolar. Do tipo que não abre nada do que pensa, foge do debate e não atrai para si os holofotes. Seus métodos de trabalho poderiam estar guardados a sete chaves e sua relação com o entorno poderia ser mais fria e distante. Sendo um técnico estrangeiro, esse seria um comportamento comum de quem vem aqui, faz o seu trabalho, ganha dinheiro e, se der, ergue taças. Por ser um forasteiro, pouco importaria as atitudes, os vícios e os defeitos de um futebol que não lhe pertence. Até por ganhar tão fácil nesse caótico cenário, poderia não lhe incomodar tanta desordem.
Esse Abel não existe. O treinador português tem um perfil enérgico, incômodo, encrenqueiro e brigador, que não se contenta apenas em ser um profissional de protocolo. Tire o lado briguento de Abel, tira todas as confusões que o técnico palmeirense se meteu ao longo desses dois anos e meio no Brasil, tire os inúmeros cartões amarelos que ele tomou, os vermelhos, o microfone chutado e talvez não tenhamos mais o treinador que ganhou tudo por aqui nos últimos tempos. Abel é fora da curva justamente por ser assim, por se comunicar dessa forma no bagunçado futebol brasileiro.
Abel se comporta mal no Brasil, porque é assim que a banda toca por aqui. Ou será que num piscar de olhos o futebol brasileiro não tem mais defeitos, jogadores e treinadores são santos, a arbitragem é profissional e todos se respeitam, o calendário é bom e apenas o rebelde técnico palmeirense cria confusão, peita jogador, aponta falhas que não existem e é destemperado?
Abel terá o mesmo comportamento quando assumir um grande clube europeu? Por óbvio que não. O português age como um personagem que se encaixa no futebol jogado por aqui e seus meandros. Rapidamente encontrou uma forma de ser ouvido, principalmente pela sua comunidade, formada por palmeirenses, que é o que mais interessa para ele. Abel Ferreira sacou logo de cara a síntese do torcedor do clube que assumiu. O “nós contra eles”, o sentimento de que o simples fato de não ser Palmeiras é ser contra a instituição, da imprensa que conspira contra, do time da virada… Pedir para um palmeirense criticar a postura de Abel, é pedir para que ele se olhe no espelho e faça uma avaliação de si mesmo e renegue sua essência. É impossível.
Do outro lado está todo o resto. Os rivais, a imprensa que precisa investigar e criticar – ao mesmo tempo que é avaliada com lupa pelos torcedores que consomem -, os jogadores, os treinadores, os dirigentes, a arbitragem, o calendário, as condições dos gramados… de modo geral, nada parece ser tão diferente da forma como Abel se comporta. Todos querem ter razão. Ninguém quer perder e, quando perde, a culpa nunca está em si.
O futebol brasileiro é um ambiente tóxico, hostil e problemático. Jogadores tentam ludibriar a arbitragem a todo tempo, os técnicos reclamam de toda decisão tomada contra seu time, elegem jornalistas como inimigos e causadores de crises e discórdias nos vestiários, dirigentes são omissos e covardes que pensam apenas no próprio sucesso e não se unem para melhorar o futebol brasileiro, árbitros são amadores, já que não tem a profissão regulamentada, enquanto o torcedor quer ver e ouvir apenas aquilo que lhe convém. E querem me vender que o principal problema do futebol brasileiro são os pitis do Abel Ferreira? To fora.
Coloque um árbitro brasileiro apitando um jogo fora do continente e depois coloque um árbitro estrangeiro para apitar um jogo por aqui. Claus e Wilton Pereira, que representaram o Brasil como árbitros na última Copa do Mundo não tiveram uma polêmica sequer numa competição que exige excelência. Por aqui, não passam um final de semana sem algum tipo de confusão por conta de alguma decisão tomada dentro de campo. O problema está realmente na arbitragem ou na forma como nos comportamos por aqui?
Abel não comete nenhum crime quando é malcriado a beira do campo, ou é cara de pau quando elogia um árbitro que não o expulsou depois de ter peitado um jogador do time rival. É punido pela regra toda vez que passa do ponto e o alto número de cartões tomados não me deixa mentir. Age como um de nós. A diferença do português para o restante é o fato dele vencer num dificultoso e atribulado futebol brasileiro.
Muitos usam o argumento de que o gênio de Abel o afasta de comandar a Seleção Brasileira. Querem que ele seja o salvador da lavoura, mas para isso ele teria que abdicar de ser esse personagem e, principalmente, do sucesso que obteve e vai continuar obtendo no Palmeiras.
Enquanto for visto como um problema e não como parte de uma solução pela revolução que faz em campo, seguiremos dando murro em ponta de faca. E cada vez mais, só ele vai ganhar, até o dia que cansar e for embora daqui com excesso de bagagem.
