Localizado a cerca de 90 quilômetros de Florianópolis, um balneário de pouco mais de 8 mil habitantes virou assunto recorrente nas redes sociais e passou a receber um novo perfil de visitante.
A Praia do Rosa, em Imbituba, tem atraído principalmente jovens argentinos entre 18 e 22 anos, que hoje são apontados por moradores e empresários como maioria entre os turistas internacionais na alta temporada.
Conhecida durante anos como reduto de surfistas e viajantes em busca de natureza preservada, a praia viu o movimento crescer após uma série de vídeos viralizarem no TikTok.
Nas primeiras semanas de janeiro, o destino passou a dividir os holofotes com a capital catarinense, tradicional ponto de encontro de argentinos no verão.
O que mudou no perfil dos visitantes
A presença de turistas da Argentina não é novidade na região. O que chamou atenção nesta temporada foi a idade média dos visitantes.
Empresários do setor de hospedagem relatam maior procura por grupos de amigos, em vez do perfil familiar predominante em anos anteriores. Entre o início e a metade de janeiro, pousadas registraram ocupação majoritária de argentinos e uruguaios.
A percepção também é compartilhada pela Associação Empresarial de Imbituba (ACIM) e pela prefeitura, que identificaram maior concentração de jovens logo após o Réveillon.
Segundo dados parciais do governo estadual, houve redução no fluxo de argentinos em Florianópolis no começo da temporada, reforçando a migração de parte desse público para cidades do Sul catarinense, como Imbituba, Laguna e Garopaba.
Além de Buenos Aires, há relatos de visitantes vindos de Córdoba, Rosário, Santa Fé e Tucumán, o que demonstra uma pulverização da origem dos turistas.
A força das redes sociais
Com a força das redes sociais, a praia ganhou destaque não só no Brasil, como também no mundo.
Em uma das mais de 30 mil publicações com a hashtag #praiadorosa, mostra-se uma jovem argentina deitada no chão, inconformada por ter que voltar para casa.
O vídeo, publicado em janeiro, soma milhares de curtidas e visualizações. Em um outro vídeo, uma turista de 20 anos relata surpresa ao encontrar colegas da universidade e conhecidos da infância caminhando pelo centrinho da vila.
Segundo depoimento da pesquisadora Issaaf Karhawi, professora da USP e autora do livro “De blogueira a influenciadora” para o G1, plataformas como o TikTok mudaram a forma como destinos são descobertos.
Para ela, o aplicativo funciona como vitrine de experiências em primeira pessoa, em que criadores atuam como mediadores culturais ao traduzir o cotidiano local para públicos globais.
No caso da Praia do Rosa, os vídeos mais comuns seguem o formato “POV” (ponto de vista), em que o espectador é colocado dentro da cena. Áudios virais, reutilizados em diferentes publicações, ajudam a reforçar a identificação coletiva.
Em um dos vídeos mais compartilhados, o diálogo simula a decisão impulsiva de se mudar para o destino de férias — recurso típico da linguagem memética da plataforma.
Rosa Norte e Rosa Sul: dois perfis em uma mesma praia
Dividida entre Rosa Norte e Rosa Sul, a faixa de areia oferece experiências distintas. No Rosa Norte, o ambiente é mais rústico, com ondas fortes e trilhas que levam a mirantes e piscinas naturais. É ponto frequente de surfistas e praticantes de altinha.
Já o Rosa Sul tem acesso facilitado de carro e maior infraestrutura. Durante o dia, concentra famílias; à noite, bares e festas atraem o público jovem que circula pelo centrinho.
Essa combinação entre natureza preservada e vida noturna mais simples, sem grandes complexos de luxo, ajuda a explicar o interesse da geração Z.
O apelo está menos na sofisticação e mais na atmosfera alternativa, nas festas ao ar livre e na possibilidade de circular a pé entre praia, hospedagem e bares.
Natureza, câmbio e custo-benefício
Reconhecida internacionalmente como destino de surfe e ecoturismo, a Praia do Rosa já foi citada pelo jornal britânico The Guardian como “pacífica e selvagem sem ser completamente remota”. O balneário também integra a lista das baías mais belas do mundo, elaborada por entidade francesa.
Além das praias, o local oferece lagoas de águas calmas, trilhas, mirantes e, no inverno, observação de baleias-francas. A infraestrutura inclui pousadas, cabanas e pequenos hotéis integrados à paisagem.
Para os jovens argentinos, o cenário natural se soma a fatores econômicos. O câmbio favorável e a oferta de voos mais acessíveis para Santa Catarina tornaram a viagem possível para grupos de amigos. Novas rotas aéreas entre a Argentina e Florianópolis também ampliaram as opções de deslocamento.
Imagem construída on-line
Nas redes sociais, a Praia do Rosa aparece associada a jovens bronzeados, festas, trilhas e encontros inesperados. Há também vídeos que mostram ruas alagadas em dias de chuva, reforçando o caráter rústico do destino.
Expressões em espanhol são comuns nas legendas, o que fortalece o sentimento de pertencimento entre os visitantes.
A repetição de cenários, áudios e frases cria um efeito de validação coletiva: muitos vídeos mostram o mesmo lugar sob ângulos diferentes, mas com sentimentos semelhantes. Para a gestão municipal, essa exposição digital contribui para ampliar a visibilidade internacional da cidade.
Ao mesmo tempo, moradores acompanham a transformação do antigo refúgio de surfistas em um destino cada vez mais presente no imaginário da juventude sul-americana.
Entre trilhas, festas e vídeos curtos, a Praia do Rosa vive um novo momento. O desafio agora é equilibrar crescimento turístico, preservação ambiental e qualidade de vida para quem escolheu o balneário não apenas como destino de férias, mas como casa.



