A Agência Nacional de Vigilância Sanitária reforçou um alerta que ganhou força nos últimos dias: parte dos glitters usado em doces contém microplásticos que podem causar danos sérios ao organismo. A discussão explodiu após um vídeo viral levantar a suspeita de que muitos pós decorativos não são seguros para consumo.
A nutróloga Suzana Viana, especialista em gastroenterologia, afirma que o problema está sendo subestimado. “As pessoas acham que, por ser ‘bonitinho’, não faz mal. Mas faz. E muito. Microplástico não deveria entrar no corpo humano, e muito menos no corpo de uma criança”, diz.
O influenciador Dario Centurione, responsável por trazer o tema à tona, defende que produtos seguros para ingestão precisam ter a palavra “alimentício” de forma clara no rótulo — o que muitos não têm. Ele chama a situação de “problema de saúde pública”.
Microplásticos no intestino: inflamação crônica silenciosa
Segundo Suzana Viana, o grande perigo é que o polipropileno micronizado — um tipo de microplástico presente em glitters decorativos não-comestíveis — não é digerido. “Esse microplástico não é quebrado. Ele fica ali. Ele altera a barreira intestinal”, explica.
Influenciador viralizou após apontar suspeita de microplástico em glitter comestível. Foto: Reprodução/ InstagramEla reforça que esse acúmulo gera um processo inflamatório que pode durar anos. “Muda completamente o ambiente intestinal. Você passa a ter algo irritando, produzindo mais bactérias, e aí começa também a modificar essa flora.”
A alteração da microbiota, segundo a nutróloga, provoca estresse oxidativo. “É como intoxicar o corpo aos poucos. Você passa a ter um excesso de radicais livres circulando, atrapalhando todo o funcionamento do intestino.”
Quando o intestino inflama, o corpo inteiro sente
A especialista lembra que o intestino é conhecido como “segundo cérebro” pela quantidade de funções que desempenha. “Se ele está inflamado, todo o resto sofre. O intestino participa do ciclo hormonal, participa da conversão do hormônio da tireoide. Não é pouca coisa”, afirma.
Ela explica que o desequilíbrio intestinal pode agravar doenças autoimunes e até questões emocionais. “A gente vê melhora de padrões de depressão quando organiza a alimentação e melhora a microbiota. Agora imagina o efeito contrário, diário, de ingestão de microplásticos.”
Segundo Suzana, há riscos concretos também para o metabolismo. “A ingestão recorrente desses produtos pode levar à resistência intestinal, que mais tarde evolui para diabetes. Pode bagunçar tireoide e até afetar fertilidade.”
Anvisa alertou sobre o perigo dos microplásticos em confeitos. Foto: Reprodução/InstagramEla resume o processo como um “efeito caçador”: um problema desencadeia outro. “Você mexe no intestino e mexe no corpo inteiro. É como derrubar a primeira peça do dominó.”
A confusão entre “atóxico” e “comestível”
Muitos pais acreditam que, se o glitter é rotulado como “atóxico”, está liberado. Mas isso é um erro comum. “Atóxico não é comestível. Atóxico significa que eu posso ter contato, e não que eu posso engolir”, diz Suzana.
Ela dá exemplos simples: tinta guache e glitter artístico são atóxicos, mas não devem ser ingeridos. “Se eu posso ingerir, é comestível. Se é só atóxico, é só para contato. É muito claro, mas as pessoas confundem.”
Materiais como PP, PET e PVC são seguros em embalagens, mas nunca em alimentos. “Eles foram feitos para armazenar, não para serem comidos. É plástico. É isso.”
“Minhas filhas não comem”: a recomendação direta da especialista
Para Suzana Viana, a recomendação é simples: evitar ao máximo. “A primeira coisa é cuidado com a origem. Confiança total na confeitaria. Se eu não confio, eu não dou”, diz.
Ela conta que é rígida quando o assunto envolve suas próprias filhas. “Minhas filhas não comem. Eu realmente tiro os olhos, tiro o excesso, não gosto de ofertar corantes e glitter para elas. Prefiro prevenir.”
Ela reforça que, ao comprar produtos para uso doméstico, o consumidor deve procurar sempre a expressão “uso comestível”. “Se não diz comestível, não é. Simples assim.”
Como identificar um glitter realmente seguro
A Anvisa orienta consumidores a seguirem alguns critérios:
- O rótulo deve ter denominação clara como “corante para fins alimentícios”.
- A lista de ingredientes deve conter substâncias seguras, como celulose, goma ou mica.
- Nunca deve conter PP, PET ou PVC.
- O produto deve ter código INS, padrão para aditivos alimentares.
- Precisa ter autorização da própria Anvisa.
A agência é categórica: polipropileno micronizado não é autorizado para uso em alimentos.
O Procon SP recomenda que glitters decorativos sejam mantidos longe de alimentos para evitar contaminação acidental.
O tratamento quando o dano já começou
Se a inflamação já está instalada, o objetivo é desinflamar o corpo. “A gente vai desinflamar esse paciente. Melhorar alimentação, melhorar sono, reduzir gatilhos. É quase um detox, mas baseado na fisiologia”, explica Suzana.
Parte essencial do processo é corrigir deficiências nutricionais. “A inflamação consome micronutrientes. A gente precisa repor vitamina, mineral… é como lubrificar o motor de novo.”
Fiscalização: o ponto mais importante
Para a nutróloga, o problema ultrapassa a escolha individual. “Eu acredito que a fiscalização bem feita é a melhor forma de garantir segurança. Prevenir sai muito mais barato do que tratar doença depois.”
Ela defende inspeções mais rígidas e rótulos mais claros. “A gente precisa de clareza. Precisa saber o que pode e o que não pode. Isso evita dano lá na frente.”
Fabricantes começam a recuar
Segundo matéria do portal g1, após a repercussão, a marca Iceberg Chef anunciou que irá retirar do mercado todos os produtos que contêm PP, reconhecendo que a distinção entre linhas decorativas e alimentícias não estava clara.
Outras empresas, porém, afirmam que seus rótulos sempre foram adequados.
Por que o tema importa
A influenciadora e professora Julia Postigo critica a confusão criada pela indústria. Ela diz que empresas deveriam priorizar versões alimentícias feitas com ingredientes naturais, como gomas, gelatina ou amido, evitando qualquer tipo de plástico.
O professor de química André Simões reforça a urgência: microplásticos já foram encontrados na corrente sanguínea e, segundo pesquisas recentes, podem chegar até ao cérebro.
Para Suzana Viana, o alerta é simples e direto: “Não vale o risco. É bonito por cinco minutos e pode causar dano por anos. Para mim, prevenção é sempre o caminho.”




