Os lobos que vivem em Chernobyl circulam por uma área que, em teoria, seria letal. No entanto, a realidade observada é bem diferente do que se imaginava logo após o desastre nuclear.
Em Hiroshima e Nagasaki, por exemplo, as bombas explodiram no ar e a radiação caiu rápido, já em Chernobyl o material do reator se espalhou no solo, com isótopos de longa duração, por isso ainda há áreas inabitáveis para humanos.
Em vez de um território vazio e inóspito, porém, a zona de exclusão de Chernobyl abriga uma população de lobos ativa e relativamente estável.
Para entender melhor esse fenômeno, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Princeton, liderada por Cara N. Love e Shane Campbell-Staton, acompanhou esses lobos ao longo de vários anos por meio de monitoramento em campo.
Os resultados foram publicados em 15 de março de 2024 na revista Cancer Research, com novas informações sobre características genéticas e possíveis sinais de adaptação ao ambiente contaminado.
Evolução dos lobos de Chernobyl
Para rastrear os lobos, os cientistas utilizaram dosímetros, que são aparelhos portáteis capazes de medir a quantidade exata de radiação acumulada no corpo.
Esses dados foram cruzados com amostras de sangue para identificar padrões nas células de defesa contra doenças.
Os pesquisadores notaram uma assinatura biológica específica, ou seja, uma mudança no sistema imunológico que ajuda a combater o surgimento de tumores e a resistir melhor aos que já desenvolveram.
O achado chamou atenção porque os lobos estão no topo da cadeia alimentar na região. Ao se alimentarem de presas contaminadas, eles tendem a acumular níveis mais altos de radiação.
Isso indica que o organismo desses animais pode ter desenvolvido mecanismos adaptativos para lidar com a exposição contínua ao estresse radioativo.
Ponderações dos cientistas
Apesar das conclusões positivas do estudo, é preciso diferenciar o que foi comprovado do que ainda é uma hipótese em estudo.
Segundo os autores, embora existam evidências de adaptação, não é possível afirmar que os lobos são imunes ou que encontraram uma cura definitiva para o câncer por causa da radiação.
Outros fatores, como o isolamento geográfico e a estrutura familiar, também influenciam a genética das populações do local.
O paradoxo da presença humana
A ausência de pessoas na zona de exclusão criou um refúgio onde os lobos vivem com muito mais densidade do que em reservas protegidas na região. Esse cenário também aparece em pesquisas sobre outros animais, como os cães da zona de exclusão de Chernobyl.
O biólogo Shane Campbell-Staton explicou ao programa Short Wave, da NPR, que a falta de caçadores compensa parte dos danos ambientais.
Segundo ele, é possível que “essa separação dos humanos acabe sendo algo muito melhor do que ter que lidar com o câncer, o que é bem problemático”.
Novos caminhos para a medicina
A ciência agora tenta entender se as defesas naturais desses lobos podem ser replicadas para salvar vidas humanas no futuro.
Para isso, cientistas estão analisando as vias imunológicas, que são os caminhos químicos que o corpo usa para sinalizar e combater ameaças internas. Campbell-Staton explica:
“Começamos a colaborar com biólogos do câncer e empresas do setor para nos ajudar a interpretar esses dados e, em seguida, tentar descobrir se existem diferenças aplicáveis que possam oferecer novos alvos terapêuticos para o câncer em humanos”.


