Por que Hiroshima e Nagasaki são habitáveis e Chernobyl continua interditada?

Bomba atômica e reator nuclear têm processos e impactos diferentes, e isso muda o tempo de contaminação

Quantidade de combustível, tipo de radiação e local da explosão ajudam a explicar por que Chernobyl ainda é zona de exclusão

Quantidade de combustível, tipo de radiação e local da explosão ajudam a explicar por que Chernobyl ainda é zona de exclusão | Wikimedia Commons

Quando o assunto é energia nuclear, dois episódios são lembrados como os mais marcantes da humanidade.

Um deles são as explosões das bombas atômicas nas cidades japonesas Hiroshima e Nagasaki, em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.

O outro é o acidente na usina nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986, na região de Pripyat, na Ucrânia.

Diante deles, surge uma pergunta recorrente: se uma bomba nuclear teve força para devastar uma cidade, por que esse local voltou a ser habitável, enquanto Chernobyl, onde nenhuma bomba foi lançada, permanece como zona de exclusão há quase 40 anos?

A comparação parece lógica, mas é um equívoco frequentemente usado para distorcer fatos históricos e princípios básicos da física nuclear. A seguir, entenda a diferença entre os episódios, segundo a BBC News.

Processos diferentes

Embora ambos envolvam fissão nuclear, bomba atômica e reator operam de formas distintas. A bomba foi criada para liberar a maior quantidade possível de energia em um intervalo extremamente curto.

Esse processo gera uma explosão intensa e imediata, com alto nível de radiação inicial. No entanto, grande parte dos elementos radioativos formados tem vida curta.

Já um reator nuclear funciona com uma reação controlada e contínua. Quando ocorre um acidente como o de Chernobyl, o material liberado tende a permanecer ativo por muito mais tempo, prolongando os riscos ambientais.

Volume de material radioativo

A quantidade de combustível envolvida também muda completamente o cenário. A bomba lançada sobre Hiroshima levava cerca de 63 kg de urânio enriquecido, enquanto a de Nagasaki continha pouco mais de 6 kg de plutônio.

Em Chernobyl, o reator número quatro abrigava cerca de 180 toneladas de combustível nuclear. Mesmo com apenas uma fração desse material sendo urânio puro, o volume total era incomparável.

Estima-se que, na explosão, aproximadamente sete toneladas de combustível foram liberadas, resultando em um nível de radiação muito superior ao das duas bombas somadas.

Natureza da liberação radioativa

Nas explosões no Japão, apenas cerca de 900 gramas de urânio realmente entraram em fissão nuclear em cada cidade. O restante foi consumido ou disperso rapidamente.

Em Chernobyl, toneladas de combustível derretido escaparam para a atmosfera. Esse material continha grandes quantidades de partículas radioativas altamente persistentes.

Entre os elementos liberados estavam xenônio, iodo radioativo e césio, todos capazes de contaminar o solo, a água e os seres vivos por longos períodos, incluindo os cachorros.

Altura e impacto no ambiente

Outro ponto decisivo foi o local da explosão. As bombas atômicas foram detonadas a centenas de metros do solo, o que fez com que grande parte da radiação se dispersasse no ar.

Esse tipo de detonação reduziu a contaminação direta do solo, permitindo a reconstrução das cidades ao longo dos anos seguintes.

Em Chernobyl, o colapso ocorreu ao nível da superfície. A interação direta com a terra ativou partículas no solo, tornando a região perigosamente radioativa até hoje.