Ninguém pode ser enterrado nesta cidade do Ártico, e a ciência explica por quê

No extremo norte da Noruega, o solo permanece congelado o ano inteiro e impede a decomposição dos corpos, criando uma regra incomum que intriga cientistas

Em uma das cidades mais isoladas do planeta, o clima extremo mudou a forma como moradores lidam com nascimento, morte e até sepultamentos

Em uma das cidades mais isoladas do planeta, o clima extremo mudou a forma como moradores lidam com nascimento, morte e até sepultamentos | (Foto: Chell Hill/ Wikimedia Commons)

Em Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, Noruega, existe uma regra incomum: não há novos enterros na cidade. O motivo não é uma lei estranha, é ciência.

O que acontece ali?

Longyearbyen fica a cerca de 1.000 km da Noruega continental, em pleno Ártico. O solo da região é formado por permafrost, uma camada que permanece congelada o ano todo.

No verão, só a parte mais superficial do chão descongela (geralmente até 1 metro). Abaixo disso, tudo continua congelado por anos, às vezes por séculos.

Por que isso impede enterros?

Porque no permafrost:

  • Corpos não se decompõem normalmente;

  • Microrganismos podem ficar preservados;

  • Vírus e bactérias podem permanecer “congelados” por décadas.

Após a pandemia de gripe espanhola de 1918, pesquisadores encontraram material genético do vírus preservado em corpos enterrados ali. O episódio acendeu um alerta sanitário.

Resultado: desde os anos 1950, o cemitério local não recebe novos sepultamentos.

Hoje funciona assim:

  • Pessoas gravemente doentes são transferidas para a Noruega continental.
  • Se alguém morre na cidade, o corpo é levado para fora do arquipélago.

Não é “proibido morrer”. O que não é permitido é ser enterrado ali.

E sobre nascer na cidade?

Longyearbyen tem hospital, mas não possui estrutura para partos complexos ou UTI neonatal.

Por segurança:

  • Gestantes viajam semanas antes do parto.
  • O nascimento acontece na Noruega continental.

Não existe lei proibindo nascimento. É uma decisão médica preventiva.

Um lugar onde o clima dita as regras

Longyearbyen tem cerca de 2.500 moradores e vive sob condições extremas:

  • Meses de escuridão total no inverno;
  • Sol 24 horas por dia no verão;
  • Temperaturas que podem chegar a −20 °C;
  • Presença de ursos-polares fora da área urbana.

Além disso, o Ártico aquece cerca de quatro vezes mais rápido que a média global, o que preocupa cientistas por causa do degelo do permafrost e da possível liberação de carbono e microrganismos antigos.

No fim das contas, a fama da “cidade onde é proibido nascer e morrer” é um resumo chamativo de algo mais simples: ali, quem define as regras é o solo congelado.