O salário mínimo aumentou nos últimos anos, mas o alívio no bolso do trabalhador ainda é limitado. Mesmo com reajustes acima da inflação em alguns períodos, o poder de compra ainda não voltou ao nível registrado antes da pandemia, e a sensação de aperto no supermercado continua presente para milhões de brasileiros.
A conta parece simples: o salário sobe, mas os preços de alimentos e serviços básicos também avançam. O resultado é um orçamento que continua pressionado, especialmente para famílias de renda mais baixa.
Inflação pesa mais para famílias de baixa renda
A inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve ficar próxima de 5% neste ano.
Para quem ganha até três salários mínimos, porém, a percepção de aumento de preços costuma ser maior. Isso ocorre porque a inflação recente está concentrada em itens essenciais do orçamento familiar, como alimentos, energia, aluguel e transporte.
Esses gastos consomem uma parcela maior da renda das famílias mais pobres, o que amplia a sensação de perda de poder de compra mesmo em períodos de reajuste salarial.
Salário mínimo recupera parte do poder de compra
Uma das formas mais usadas por economistas para medir o poder de compra da população é comparar o valor do salário mínimo com o preço da cesta básica.
Levantamento da consultoria 4intelligence, do economista Bruno Imaizumi, com base em dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para a cidade de São Paulo, mostra que houve uma recuperação gradual nos últimos anos.
Em abril de 2022, quando o salário mínimo era de R$ 1.212, um trabalhador conseguia comprar, em média, cerca de 1,5 cesta básica.
Esse poder de compra avançou para quase 1,7 cesta em novembro de 2024.
Para 2026, com o mínimo projetado em R$ 1.621 e o preço médio da cesta básica estimado em R$ 854,37, a capacidade de compra deve alcançar cerca de 1,9 cesta.
Apesar da melhora gradual, o indicador ainda permanece abaixo do nível registrado antes da pandemia, quando o salário mínimo permitia adquirir uma quantidade maior de alimentos essenciais.
Segundo o Dieese, o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria chegar a R$ 7.067,18 — mais de quatro vezes o valor atual.
Juros altos encarecem crédito
Se o PIB cresce, por que o salário não acompanha o mesmo ritmo? Parte da resposta está nas regras de controle de gastos públicos. O Arcabouço Fiscal estabelece um limite para o ganho real do salário mínimo — acima da inflação — de até 2,5% ao ano.
Na prática, essa regra reduz a velocidade de recuperação do poder de compra, já que o reajuste não acompanha, no mesmo ritmo, a alta de preços de serviços e produtos essenciais.
Outro fator que pressiona o orçamento doméstico é o custo do crédito. Para conter a inflação, o Banco Central mantém a taxa básica de juros, a Selic, em patamar elevado, entre 12% e 13%.
Na prática, juros mais altos tornam mais caras as parcelas de financiamentos, compras no crediário e dívidas no cartão de crédito.
Com isso, uma fatia maior da renda mensal acaba destinada ao pagamento de dívidas, o que reduz o espaço no orçamento para consumo e poupança dos brasileiros.
Recuperação da renda ainda é gradual
Nos últimos anos, os reajustes do salário mínimo voltaram a combinar inflação e crescimento econômico.
Apesar disso, a recuperação do poder de compra ocorre lentamente, já que os aumentos salariais precisam compensar perdas acumuladas em períodos anteriores de inflação elevada.
Por isso, o ganho real no orçamento das famílias aparece somente ao longo dos anos.
Perspectivas para o orçamento 2026
Para o restante de 2026, economistas apontam um cenário de cautela. A melhora do poder de compra dependerá principalmente da desaceleração da inflação de alimentos e de uma redução de forma escalonada dos juros.
Enquanto esse movimento não se consolida, o orçamento das famílias brasileiras de baixa renda segue pressionado, com pouca margem para ampliar o consumo.
Na prática, o salário mínimo recuperou parte do poder de compra, mas ainda corre atrás de um custo de vida que mudou de patamar nos últimos anos.
