Duas principais linhagens do vírus da mpox — conhecidas como clado 1 e clado 2 — estão no centro das discussões sobre a evolução da doença no Brasil.
As diferenças genéticas entre essas variantes podem influenciar diretamente a forma como o vírus se comporta no organismo.
Com quase 150 casos registrados em 2026, segundo dados do Ministério da Saúde, o avanço da doença reacende dúvidas sobre gravidade e capacidade de resposta do sistema de saúde.
Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentram a maior parte das notificações.. De acordo com o infectologista Igor Marinho, da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, o comportamento do vírus pode variar conforme o tipo de clado em circulação.
Diferença entre clados e impacto na gravidade
Segundo o especialista, o clado 1 tende a apresentar um perfil mais agressivo em comparação ao clado 2. Assim, o perigo se torna maior para o infectado.
“As diferenças genéticas entre os clados podem alterar a capacidade do vírus de se multiplicar, de se disseminar no organismo e de escapar de uma resposta imunológica. O clado 1 tem um comportamento mais virulento ou invasivo do que o clado 2, sendo associado a quadros mais graves e maior mortalidade em diferentes cenários analisados”, explica.
Apesar disso, ele ressalta que a gravidade não depende apenas da variante, mas também do contexto local e condições de quem é afetado pela doença.
“Essa comparação também é influenciada pelo contexto local, como acesso à saúde, idade da população e presença de comorbidades. Não é apenas o vírus em si, mas a combinação entre as características da cepa e do ambiente em que ela circula”, completa.
Diagnóstico não identifica variante no atendimento inicial
Na prática clínica, não é possível diferenciar as linhagens apenas pelos sintomas. De acordo com Igor, a proximidade de sintomas impede a possibilidade de descobrir qual o clado da mpox presente.
“O quadro clínico é muito parecido: febre, aumento de linfonodos e lesões na pele. Não dá para definir com segurança qual é a cepa apenas pelo exame clínico no atendimento inicial”, afirma.
A confirmação da variante depende de exames mais complexos, como o sequenciamento genético. Esse tipo de análise não faz parte da rotina da maioria dos hospitais no país.
Tratamento segue o mesmo para diferentes cepas
Mesmo com diferenças entre os clados, o tratamento não muda no atendimento ao paciente.
Segundo o infectologista, a principal abordagem continua sendo o controle dos sintomas e, em alguns casos, o uso do antiviral Tecovirmat.
“Saber da cepa não muda o tratamento. Quem está atendendo o paciente está focado em confirmar o diagnóstico de mpox e conduzir o caso com medidas de suporte. A preocupação com a variante é mais epidemiológica, para entender o que está circulando na comunidade”, destaca.
A identificação das linhagens têm papel mais relevante para monitoramento epidemiológico.
Desafio do Brasil está na vigilância genômica
O principal gargalo para acompanhar a circulação das variantes está na limitação de exames específicos.
Enquanto o teste PCR confirma a infecção, apenas o sequenciamento permite identificar o clado do vírus.
“O sequenciamento genético é um teste caro e não está amplamente disponível na rotina. Ele depende de laboratórios especializados e de uma logística estruturada para envio de amostras, o que ainda limita a capacidade de vigilância genômica no país”, explica.
A ampliação dessa estrutura é considerada essencial para entender a dinâmica da doença no Brasil.
Clado x Cepa
O termo clado refere-se a um grupo de organismos que compartilham um mesmo ancestral comum, funcionando como grandes “famílias” na árvore genealógica do vírus.
No caso da mpox, os clados 1 e 2 indicam linhagens que evoluíram de formas distintas ao longo do tempo.
Já a cepa ou variante é usada quando o vírus apresenta mutações específicas que podem alterar seu comportamento, como a velocidade de transmissão ou a gravidade. A mpox possui duas cepas: a cepa da Bacia do Congo (África Central) e a cepa da África Ocidental.
Na prática, identificar esses grupos ajuda cientistas a monitorar como a doença se espalha e se transforma.
