Autismo em adultos: o alívio e os desafios do diagnóstico tardio

Entenda por que adultos entre 30 e 50 anos estão descobrindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA) apenas agora

Como adultos de 30 a 50 anos estão ressignificando suas trajetórias através do diagnóstico de TEA.

Como adultos de 30 a 50 anos estão ressignificando suas trajetórias através do diagnóstico de TEA. | Ilustração/IA/Gazeta de S. Paulo

A quebra de estereótipos históricos sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem impulsionado um aumento sem precedentes no diagnóstico de adultos entre 30 e 50 anos, revelando uma face até então invisível da neurodivergência. 

O fenômeno expõe as falhas de detecção da ciência no passado e transforma a confirmação tardia do dianóstico em uma ferramenta de reparação identitária, substituindo décadas de incompreensão social por um novo entendimento sobre o funcionamento cognitivo e o suporte clínico na maturidade. 

Da autocobrança ao diagnóstico 

Este fenômeno de invisibilidade clínica é amplamente atribuído ao masking (mascaramento), um esforço exaustivo consciente ou não de mimetizar comportamentos sociais para se adequar às normas neurotípicas. 

Antes de receber o diagnóstico, muitos adultos constroem narrativas próprias para justificar o esgotamento, frequentemente internalizando as dificuldades como falhas de caráter. 

É o caso da nossa entrevistada Paula Almeida, servidora pública que descobriu o autismo aos 38 anos e que, durante anos, atribuiu sua exaustão sensorial a uma suposta falta de resiliência: “Eu sempre fui muito pragmática e orientada a resultados, então interpretava minhas dificuldades como questões de disciplina ou traços de personalidade”, explica.  

Para ela, o que hoje é compreendido como uma necessidade neurológica de previsibilidade era, à época, mascarado por uma busca incessante por desempenho. “Minha necessidade de rotina era vista como busca por eficiência, quando, na verdade, tratava-se de uma ferramenta básica para manter a estabilidade e evitar sobrecargas”, conclui. 

Jornada do autodiagnóstico à clínica 

Diferente do diagnóstico infantil do autismo, focado no desenvolvimento marcos motores e de fala, o diagnóstico no adulto foca na história de vida e no funcionamento executivo. 

Os sinais que frequentemente passam batido: 

  • Hipersensibilidade sensorial: incômodo extremo com luzes fluorescentes, etiquetas de roupas ou ruídos específicos. 
  • Dificuldade em “ler as entrelinhas”: dificuldade com ironias, sarcasmo ou regras sociais não escritas. 
  • Interesses profundos: uma dedicação intensa e técnica a temas específicos, muitas vezes confundida com “perfeccionismo”. 
  • Rigidez cognitiva: necessidade de rotinas previsíveis e grande angústia diante de mudanças repentinas. 

Além das aparências: o fim do estigma 

O maior obstáculo para adultos neurodivergentes, no entanto, ainda é o preconceito enraizado em uma imagem datada do transtorno. 

Para Paula Almeida, o principal mito a ser derrubado é a ideia de que o autismo é sempre visível ou incompatível com uma vida funcional e produtiva. 

O comentário comum e equivocado “você não parece autista” é o que ela mais combate. “Minha trajetória mostra o contrário: sou formada em duas áreas, estudo para concursos de alto nível e sou mãe de três filhos”, pontua.  

Ela reforça que o TEA não limita sua capacidade, mas molda a forma como percebe e organiza o mundo. 

A invisibilidade, muitas vezes alimentada pelas estratégias de mascaramento desenvolvidas desde a infância, esconde um potencial técnico subestimado pelo mercado e pela sociedade.  

“Ser autista não me impede de ser uma profissional qualificada. Pelo contrário, minha neurodivergência proporciona profundidade de análise e foco intenso características valiosas em contextos que exigem rigor técnico”, conclui Paula.