Único país da América Latina sem capivaras descobre fósseis surpreendentes

Achados arqueológicos indicam que o animal já habitou a região em um período com clima e paisagem diferentes dos atuais

Descoberta revela que áreas hoje frias e montanhosas já tiveram ambientes úmidos capazes de sustentar grandes herbívoros

Descoberta revela que áreas hoje frias e montanhosas já tiveram ambientes úmidos capazes de sustentar grandes herbívoros | Giles Laurent/Wikimedia Commons

Uma pesquisa científica revelou evidências inéditas sobre a presença antiga de capivaras no território do Chile, país onde esses animais não vivem atualmente por causa do clima desfavorável.

O estudo descreve fósseis encontrados na região sul do país e aponta que o grupo já habitou a área há cerca de 4,5 milhões de anos.

Publicado na revista Journal of South American Earth Sciences, o trabalho integra uma investigação paleontológica sobre mamíferos que viveram durante o período Neógeno, fase geológica marcada por mudanças climáticas e pela expansão de diferentes espécies na América do Sul.

Escavações em área de obras levaram à descoberta inesperada

Fósseis foram identificados durante atividades de monitoramento em obras de infraestrutura no município de Renaico, localizado na região de La Araucanía (Foto: Eric Kilby/Wikimedia Commons)

Os fósseis foram identificados durante atividades de monitoramento em obras de infraestrutura no município de Renaico, localizado na região de La Araucanía.

A coleta ocorreu enquanto profissionais acompanhavam escavações para a construção de um parque eólico.

Segundo a pesquisadora Karina Buldrini, responsável pelo estudo, o primeiro indício surgiu a partir da análise de um dente encontrado no local.

Em entrevista à emissora chilena T13, ela explicou que a forma da peça permitiu levantar a hipótese inicial sobre o tipo de animal.

“Hoje, as capivaras são os maiores roedores que vivem no planeta, mas no passado também existiram outros roedores de grande tamanho”, informou Buldrini.

No Brasil, a presença de capivaras é muito frequente. Os animais são considerados “fofos” por muita gente, apesar de terem se tornado perigo real à aviação brasileira nos últimos anos.

Fósseis encontrados na escavação

Segundo os autores, trata-se da primeira evidência anatomicamente comprovada de capivaras no Chile (Foto: Enrique González/Wikimedia Commons)

O conjunto recuperado inclui molar, incisivos, fragmentos de fêmur e parte da pelve. Esses elementos permitiram a identificação do gênero Phugatherium, um ancestral das capivaras modernas.

Segundo os autores, trata-se da “primeira evidência anatomicamente comprovada de capivaras no Chile e o primeiro registro neógeno de mamíferos continentais na Depressão Central chilena”.

A pesquisa explica que o material analisado apresenta características específicas da estrutura dentária do Phugatherium, como uma divisão interna que separa o dente em dois lobos.

Um artigo citado pelo portal DW ainda informa que esses roedores gigantes podiam chegar a dois metros de comprimento e pesar cerca de 300 kg.

Paralelamente, outros animais gigantes que já habitaram a Terra, inclusive o Brasil, foram os tatus e as preguiças gigantes, integrantes da antiga megafauna sul-americana.

Achado ajuda a explicar como era a região há milhões de anos

Fósseis indicam que a região já teve mais água e vegetação do que atualmente, formando um ambiente favorável a esses grandes herbívoros (Foto: Giles Laurent/Wikimedia Commons)

Além dos restos do roedor, os pesquisadores também encontraram vestígios de outro mamífero herbívoro extinto, conhecido como litopterno.

Segundo os autores do estudo, a presença desses animais juntos ajuda a reconstruir como era o antigo ambiente da região.

“Essa descoberta sugere que a localidade de Renaico representava uma paisagem heterogênea, combinando áreas úmidas e habitats abertos”, informam os pesquisadores.

Hoje, o bioma de La Araucanía é marcado por florestas temperadas, lagos frios e vulcões, condições onde capivaras, típicas de áreas úmidas, não prosperam.

Porém, os fósseis indicam que a região já teve mais água e vegetação do que atualmente, formando um ambiente favorável a esses grandes herbívoros.