No sul e no sudeste do Brasil, passagens subterrâneas de metros de altura cruzam paisagens inteiras sem que a maioria das pessoas perceba.
Chamadas de paleotocas, essas estruturas foram escavadas por animais extintos e ainda são objeto de estudo, porque há dúvidas sobre como foram construídas, para que serviam e como devem ser protegidas.
Segundo a BBC News, o interesse científico por esses túneis cresceu apenas nas últimas décadas, à medida que novos achados vieram à tona em diferentes estados.
O acidente que construiu uma nova teoria
Em 2009, um agricultor trabalhava em seu campo de milho no sul do país quando o trator afundou repentinamente. Ao descer, ele viu que uma das rodas havia rompido o teto de uma cavidade subterrânea.
Pesquisadores chamados ao local encontraram um túnel com cerca de dois metros de altura, quase dois metros de largura e aproximadamente 15 metros de comprimento, passando sob a própria casa do fazendeiro.
As paredes apresentavam marcas profundas de garras, indício de que o espaço não era natural nem humano.
Quem poderia ter cavado
O geólogo Luiz Carlos Weinschutz concluiu que o túnel teria sido aberto por uma preguiça-gigante ou por um tatu-gigante há pelo menos 10 mil anos.
Estudos descrevem essas preguiças como “hamsters do tamanho de elefantes”, muito diferentes das espécies atuais.
Elas podiam alcançar quatro metros de comprimento e andar sobre quatro patas, embora algumas conseguissem se erguer como bípedes. Tatus-gigantes, do tamanho de carros, também escavavam longos corredores na rocha brasileira.
Onde se concentram hoje
Nos últimos 15 anos, mais de 1,5 mil paleotocas foram registradas no sul e no sudeste do Brasil, a maior concentração conhecida no mundo.
A maioria está em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, mas há exemplos relevantes em Minas Gerais e em Rondônia.
Um conjunto mineiro reúne seis túneis de até 40 metros de extensão que levam a câmaras com cerca de 10 metros de largura e quatro metros de altura.
Em junho, a Justiça de Minas Gerais determinou a proteção de uma paleotoca de 340 metros na Serra do Gandarela, a maior já encontrada no estado.
Segundo o geólogo Heinrich Theodor Frank, não há registros equivalentes na América do Norte, apesar de a megafauna ter circulado por todo o continente.
Crenças e interpretações
Durante muito tempo, moradores e até pesquisadores imaginaram que as passagens fossem construções humanas antigas e que as marcas nas paredes fossem de ferramentas.
Algumas paleotocas contêm arte rupestre, como a Toca do Tatu, em Santa Catarina, mas sua datação é quase impossível de ser identificada pois o desenho é gravado nas rochas e não pintado.
Relatos orais do povo Kaingang indicam que comunidades indígenas já conheciam as paleotocas muito antes da ciência moderna, associando os túneis a narrativas sobre enchentes e passagens subterrâneas.
Paralelamente, crenças de que jesuítas teriam escondido tesouros nesses locais estimularam a ação de caçadores, que acabaram perturbando o solo e comprometendo evidências arqueológicas.
Como foram feitas
As marcas nas paredes levaram os cientistas a atribuir os túneis principalmente a preguiças-gigantes e tatus-gigantes.
“Você encontra um livro aberto. Você observa, você sente que isso não foi feito por seres humanos”, disse Heinrich Theodor à BBC.
Luiz Carlos Weinschutz está mapeando paleotocas em 3D para identificar padrões de escavação e buscar vestígios de pelos fossilizados que ajudem a confirmar as espécies envolvidas. “Este estudo ainda é novo, temos anos e anos de pesquisa à nossa frente nesta área”, afirmou ele.
A hipótese mais aceita é que os túneis ajudavam na proteção dos filhotes, na regulação da temperatura corporal ou na hibernação. Não há consenso definitivo, e cada nova descoberta traz mais perguntas do que respostas.
Outras descobertas no Brasil
Além de túneis como as paleotocas cavados por animais extintos, o Brasil tem registro de outras descobertas importantes da pré-história.
Em São Paulo, pesquisadores encontraram ovos fossilizados de dinossauros carnívoros com até 80 milhões de anos, um achado que pode indicar desenvolvimento embrionário preservado e gerar novas pistas sobre a evolução desses répteis no interior paulista.
Outro exemplo de riqueza paleontológica no estado foi a descoberta de um fóssil de crocodilo com milhões de anos, reforçando o valor científico de sítios fossilíferos no território brasileiro.


