Um pedaço da Ilíada, uma das obras mais famosas atribuídas a Homero, apareceu em um lugar que ninguém esperava: dentro de uma múmia egípcia de cerca de 1.600 anos.
O achado foi feito em Oxirrinco, antiga cidade greco-romana localizada na atual Al-Bahnasa, no Egito. Mais do que uma curiosidade arqueológica, ele revela um encontro raro entre literatura, morte e rituais antigos.
O papiro estava colocado na região do abdômen da múmia, como parte do processo de embalsamamento. Para os pesquisadores, essa é a primeira vez que um texto literário grego aparece incorporado a uma mumificação.
Por que a descoberta chamou atenção
A múmia foi encontrada na tumba 65 do setor 22 de Oxirrinco, durante uma campanha arqueológica realizada entre novembro e dezembro de 2025 pela missão da Universidade de Barcelona.
O que torna o caso especial é o conteúdo do papiro. Em escavações anteriores, os arqueólogos já haviam encontrado textos gregos associados a múmias, mas eles tinham caráter mágico ou ritualístico.
Desta vez, porém, o fragmento pertence à Ilíada, poema épico ligado à Guerra de Troia. O trecho foi identificado como parte do Livro 2, na passagem conhecida como Catálogo dos Navios.
O Egito antigo ainda surpreende arqueólogos com descobertas que ligam morte, memória e escrita (Foto: Wikimedia Commons/Shijan Kaakkara)O que estava escrito no papiro
O Catálogo dos Navios lista as forças gregas que seguiram para Troia. Portanto, o fragmento não era um texto funerário comum, mas parte de uma obra literária que já era considerada clássica na Antiguidade.
O professor Ignasi-Xavier Adiego, da Universidade de Barcelona, afirmou que papiros gregos já tinham sido encontrados em mumificações, mas “até agora, o conteúdo era principalmente mágico”.
Ele também destacou que “a verdadeira novidade é encontrar um papiro literário em contexto funerário”. A frase resume por que o achado ganhou tanta repercussão entre arqueólogos e estudiosos da Antiguidade.
O que isso revela sobre o Egito antigo
A descoberta mostra como o Egito do período romano era marcado por intensa mistura cultural. Em Oxirrinco, tradições egípcias, língua grega e costumes romanos conviviam no mesmo território.
Além disso, o uso de um texto literário em uma múmia sugere que obras como a Ilíada podiam ter valor simbólico além da leitura. O papiro pode ter sido reaproveitado, mas sua presença no corpo abre novas perguntas.
Agora, os pesquisadores analisam o fragmento para entender melhor sua conservação, seu uso e o motivo de ele ter sido colocado junto à múmia. O achado transforma um sepultamento antigo em uma pista rara sobre como diferentes culturas se encontravam diante da morte.






