A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) cobra R$ 24,5 milhões do presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, segundo extratos aos quais a reportagem da Folha de S.Paulo teve acesso. O órgão não detalha a origem nem data das cobranças e informa que elas são tributárias, de Imposto de Renda, Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), PIS e Cofins.
Os valores cobrados do dirigente estão separados em nove inscrições de dívida ativa, que variam de valores entre R$ 427 mil até R$ 7,9 milhões.
O advogado de Andrés Sanchez, João dos Santos Gomes Filho, reconhece as cobranças no CPF do seu cliente, mas contesta a legitimidade delas. Segundo a defesa, há perseguição política ao dirigente.
“O Andrés está nessa situação porque é de esquerda, é amigo do Lula, é presidente do Corinthians. O Andrés tem uma ligação muito grande com o Lula, que sempre foi alvo desse governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL)”, disse o advogado à reportagem.
Sanchez foi deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o mesmo de Lula, entre 2015 e 2018. Ele não concorreu a reeleição no ano passado. A Procuradoria não se pronunciou sobre o caso.
As cobranças ao presidente corintiano têm origem em quatro empresas. Em três delas, ele está registrado como sócio. Em outra, a Justiça determinou em primeira instância que o cartola usou ex-funcionárias para sonegar a propriedade da firma.
É o caso da Orion Embalagens Limitada, inscrita na dívida ativa na União com débito de R$ 18.880.084,59. Registrada na cidade de Caieiras (SP), ela não está mais em atividade, segundo cadastro da Receita Federal, e é alvo de processo na Justiça.
Documento na Junta Comercial do Estado de São Paulo aponta como sócias da empresa Eliane Souza Cunha e Nilda Maria da Cunha. Elas são ex-funcionárias da Sol Embalagens Plásticas, que tem o dirigente como sócio, e o acusam de utilizá-las como “laranjas” na abertura da Orion.
As duas alegam que a empresa serviria apenas para estocar material da Sol. Ainda segundo as ex-funcionárias, Sanchez utilizou a firma para aquisição de crédito bancário e comercialização de mercadorias, o que fez com que ambas tivessem bloqueio de bens e restrição de créditos em seus nomes.
“A Justiça reconheceu que a empresa pertence a ele [Andrés Sanchez]. A Polícia Federal encontrou elementos que comprovam que elas são inocentes e foram apenas laranjas na Orion”, afirmou Mirian Dias de Souza Lemos, advogada de Eliane Souza Cunha e Nilda Maria da Cunha.
Além da Orion, o presidente do Corinthians está inscrito na dívida ativa da União por cobranças a outras empresas, das quais ele está registrado como sócio: a Sol Embalagens, no valor de R$ 23.496,25; a Quiron Distribuidora de Embalagens, com débitos de R$ 5.661.494,30; e a V.E. El Shadai Embalagens, com R$ 311.255,43.
A reportagem também consultou dados dos demais presidentes de clubes paulistas. Maurício Galiotte, do Palmeiras; Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, do São Paulo; e José Carlos Peres, do Santos, não estão inscritos na dívida ativa da União.
Andrés Sanchez é presidente do Corinthians desde fevereiro de 2018, quando foi eleito pelos sócios do clube para um mandato de três anos. Sob sua administração, a agremiação enfrenta problemas financeiros com cobranças de tributos e atrasos no pagamento das parcelas do financiamento para construção do estádio em Itaquera.
A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional cobrou do clube alvinegro, em junho, mais de R$ 566 milhões. Desse montante, R$ 361,9 milhões são referentes ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica, R$ 109,6 milhões de Contribuição Social sobre Lucro Líquido, R$ 86,5 milhões de Confins e R$ 12 milhões de PIS.
Os valores estão separados em oito inscrições junto à União e não incluem pagamentos já acordados em programas de refinanciamento de dívidas, como o Profut (Programa de Modernização da Gestão de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro), de 2015. O Corinthians refinanciou R$ 152 milhões.
O valor cobrado pela Procuradoria ultrapassa toda a receita líquida do clube, de R$ 446 milhões, registrada em 2018. A equipe fechou o ano com déficit de R$ 18 milhões.
Em nota enviada pela sua assessoria de imprensa à reportagem, o Corinthians afirmou que se considera isento do pagamento de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, CSLL, PIS e Cofins. Afirma também que outros clubes, como Athletico-PR e São Paulo, obtiveram vitórias ao contestarem a cobrança na Justiça.
Advogado afirma que dirigente é vítima de perseguição política.
Outro lado
Andrés Sanchez foi procurado e indicou o advogado João dos Santos Gomes Filho para se pronunciar em seu nome.
A defesa cita o fato de o dirigente não estar entre os sócios da empresa no registro da Junta Comercial do Estado de São Paulo. O governo federal, no entanto, imputou o corintiano das dívidas da Orion.
“Essa dívida não se comunica com o Andrés por vários motivos. O Ministério Público diz que ele investe como diretor industrial, e nunca houve isso. Não faz parte de nenhuma atividade nem como sócio e nem como diretor financeiro, que assina pela empresa. E por que o André responde pela empresa? A visibilidade que ele dá para um fiscal, para um promotor é grande”, afirmou Gomes Filho.
As sócias da Orion acusam Andrés, desde 2014, de terem sido utilizadas como laranja para abertura da empresa.
“A corte especial do STJ disse que, por unanimidade, o fato de o cidadão constar no rol de sócios da empresa não é suficiente para comprovação efetiva do delito. O Andrés não está no contrato social. Mesmo se ele tivesse, deveria provar a conduta lesiva e não houve”, disse o advogado. “O Andrés não faz parte do quadro de sócios, não assinou um cheque.”
Gomes Filho diz que a cobrança ao seu cliente é resultado de perseguição política.
“A cobrança é vergonhosa. Nunca cuidei de um caso como esse. Ninguém, no direito brasileiro, pode ser prejulgado por uma coisa que não fez.”
TRAJETÓRIA DE SANCHEZ NO CORINTHIANS
1º cargo no clube
Conselheiro vitalício do Corinthians desde 1997, foi vice-presidente na gestão de Alberto Dualib. Deixou o cargo em 2006, rompido com o cartola.
Presidente na queda
Assumiu presidência do Corinthians em outubro de 2007, dois meses antes da queda à Série B, após renúncia de Dualib.
Volta à Série A
Comandou o clube na campanha do acesso à Série A, em 2008. Com ele na presidência, o Corinthians venceu a Copa do Brasil, em 2009, e o Brasileiro, em 2011.
Ronaldo
À frente do Corinthians, contratou o atacante Ronaldo, em 2008.
Itaquerão
Durante seu mandato, foi responsável pelo projeto da arena Itaquera. A inauguração, porém, aconteceu quando Mario Gobbi era o presidente.
Deputado federal
Se elegeu deputado federal pelo PT em São Paulo com 169.834 votos em 2014.
Volta ao Corinthians no futebol
Assumiu o cargo de superintendente de futebol de fevereiro de 2015 a janeiro de 2016, na gestão do presidente Roberto de Andrade.
Novo mandato como presidente
Retornou à presidência do clube em fevereiro de 2018 e sagrou-se bicampeão paulista.
Dívida do Itaquerão
Na atual gestão, negociou com a Caixa Econômica Federal um refinanciamento do empréstimo para a construção da arena. O clube atrasou pagamentos das parcelas em 2019. O banco estatal não aceitou a proposta corintiana e cobra na Justiça R$ 536 milhões.
PERFIL – Andrés Sanchez, 55
Conselheiro vitalício do Corinthians desde 1997, o empresário foi presidente do clube em dois períodos diferentes, de 2007 a 2012 e desde 2018 (tem mandato até 2021). Em 2014, se elegeu deputado federal pelo PT de São Paulo, deixando o cargo ao fim do mandato sem disputar reeleição.