Cientistas detectaram pela primeira vez em mais de 25 anos a presença de uma lula gigante nas profundezas do oceano da Austrália.
A descoberta foi feita com uma técnica inovadora que captura o DNA deixado pelo animal na própria água do mar — sem que ninguém precisasse vê-lo diretamente.
Um dos animais mais enigmáticos do oceano voltou a dar sinal de vida.
Pesquisadores australianos confirmaram a presença de lula gigante numa região onde ela não era registrada há mais de duas décadas — e a descoberta abre caminho para algo que ainda nunca foi feito: filmar esse gigante vivo nas profundezas.
A tecnologia que rastreou o invisível
O método usado pelos cientistas se chama eDNA — ou DNA ambiental. A técnica consiste em coletar amostras de água e analisar o material genético que animais liberam naturalmente no ambiente.
Esse DNA é liberado de forma invisível: por atrito da pele, excreções ou células descamadas. Nem é preciso ver o animal para provar que ele está ali.
Localizar sinais desses cefalópodes na Austrália ajuda a entender a rota migratória e os hábitos da espécie. Foto: Ilustração/Gazeta de S. Paulo
A equipe do Centro OceanOmics Minderoo, da Universidade da Austrália Ocidental, encontrou esses vestígios em cânions subaquáticos a 4.572 metros de profundidade, na costa de Nyinggulu, região de Ningaloo, no lado ocidental da Austrália.
O estudo foi publicado na revista científica Environmental DNA e confirmou a presença da lula gigante na região pela primeira vez em mais de 25 anos.
Por que é tão difícil fotografar esse animal
Apesar de poder atingir 13 metros de comprimento, a lula gigante é praticamente invisível para as câmeras.
A pesquisadora principal do estudo, Georgia Nester, explica o paradoxo: esses animais são esguios o suficiente para fugir da maioria das fotografias, segundo ela disse à revista Oceanographic.
A lula gigante possui os maiores olhos do reino animal. Estudar como ela enxerga e se comporta nas profundezas é uma das grandes metas da biologia marinha — e uma fotografia viva seria um avanço histórico para a ciência.
Agora que os cientistas sabem que o animal está naquela região, aumentam as chances de uma câmera finalmente registrá-lo com vida nas profundezas australianas.
Apesar do tamanho impressionante, a lula-gigante é extremamente arredia e raramente filmada em seu habitat natural. Foto: Ilustração/Gazeta de S. Paulo
O Kraken existe — mas é bem menos assustador que a lenda
A lula gigante alimenta o imaginário popular há séculos.
Georgia Nester observou que sempre que qualquer informação sobre a lula gigante aparece, “as pessoas já automaticamente a conectam com o Kraken e as demais figuras míticas dessa espécie de molusco”, conforme declarou à revista Oceanographic.
Mas a realidade é bem diferente da lenda. A lula gigante se alimenta apenas de peixes e lulas menores — nada que se compare ao monstro devorador de navios das histórias.
Ela também não nada próximo à superfície. Seu habitat natural fica nas profundezas escuras do fundo do oceano, longe de embarcações e de qualquer possibilidade de confronto com humanos.
Uma expedição cheia de surpresas
A lula gigante não foi a única descoberta da missão. Enquanto vasculhavam aqueles ecossistemas marinhos profundos e pouco explorados, os biólogos encontraram outras criaturas igualmente impressionantes.
Especialistas utilizam sensores avançados para rastrear a vida marinha em pontos inexplorados do oceano. Foto: Ilustração/Gazeta de S. Paulo
Entre os animais identificados estão:
- Tubarão dorminhoco — espécie conhecida por ficar imóvel no fundo do mar
- Enguia-cusk-sem-rosto — criatura de aparência incomum e raramente registrada
- Tubarão-dente-de-serra — predador com mandíbulas peculiares e pouco estudado
Além dessas, conforme a revista Extra, foram avistadas formas de vida ainda em investigação — que levantam a suspeita de serem completamente novas para a ciência.
O que a descoberta significa para a ciência
Encontrar evidências de uma lula gigante “realmente desperta a imaginação das pessoas”, disse Georgia Nester à revista Oceanographic. Mas vai além do fascínio popular.
A detecção por eDNA mostra que é possível monitorar espécies raras sem perturbá-las. Isso abre uma nova frente para a conservação da vida marinha em oceanos profundos.
Saber que a lula gigante está presente naquela região australiana também orienta futuras expedições — que agora têm um destino mais preciso para tentar o que a ciência ainda não conseguiu: filmar esse gigante vivo nas profundezas do mar.




