Oxford identifica falha ativa que pode fragmentar a África em milhões de anos

Ao analisar gás de fontes termais na Zâmbia, cientistas da Universidade de Oxford encontraram evidências de uma falha geológica ativa que vai da superfície até o interior profundo da Terra

Estudo publicado na revista Frontiers in Earth Science confirma que a Fenda de Kafue, na Zâmbia, é uma falha geológica ativa com ligação direta com o manto terrestre

Estudo publicado na revista Frontiers in Earth Science confirma que a Fenda de Kafue, na Zâmbia, é uma falha geológica ativa com ligação direta com o manto terrestre | Reprodução/Youtube

Pesquisadores da Universidade de Oxford identificaram uma rachadura geológica na Zâmbia que atravessa a crosta terrestre até o manto do planeta — e pode, em milhões de anos, dividir o continente africano ao meio. A descoberta foi publicada na revista científica Frontiers in Earth Science em maio de 2026.

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O continente africano guarda em seu subsolo uma história em movimento. Uma nova pesquisa mostrou que uma falha geológica na Zâmbia não apenas existe — como está ativa e conectada às profundezas da Terra. O achado reacende o debate sobre o futuro geológico da África.

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O que é a Fenda de Kafue

A Fenda de Kafue é uma estrutura geológica localizada na Zâmbia, no sul da África. Ela faz parte de um sistema maior de fendas — o Sistema de Rift do Sudoeste Africano, que se estende da Tanzânia à Namíbia.

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Rifts são zonas onde a crosta terrestre se estica e se afina. Com o tempo, podem evoluir para separações completas de placas tectônicas — como já aconteceu em outras partes do planeta ao longo de bilhões de anos.

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A questão que os pesquisadores queriam responder era direta: essa fenda está ativa? E o quanto ela vai fundo?

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África pode ter novo oceano em milhões de anosPesquisadores utilizaram fontes de água em ebulição para “ouvir” os sinais que vêm do interior do planeta. Reprodução/Youtube

 

Como o gás revelou o segredo do subsolo

A equipe da Universidade de Oxford usou uma abordagem inovadora: analisar o gás presente nas fontes geotérmicas ao longo da falha. Foram investigados oito poços e nascentes termais — seis dentro da zona de rachadura e dois fora dela.

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Os cientistas coletaram amostras de gás de água em ebulição e analisaram os isótopos de hélio e dióxido de carbono presentes nelas.

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O resultado foi revelador: os isótopos tinham as mesmas características do gás proveniente do manto terrestre, localizado entre 40 e 160 km abaixo da superfície. A falha havia se aprofundado o suficiente para conectar literalmente a superfície ao interior quente da Terra.

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Para confirmar o achado, os pesquisadores compararam as leituras com as do Sistema de Rift da África Oriental — uma falha geológica já reconhecidamente ativa. As assinaturas eram parecidas demais para ser coincidência.

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O que diz o pesquisador responsável

Um dos autores do estudo, Mike Daly, foi direto ao ponto em comunicado divulgado com a publicação.

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“As fontes termais ao longo da falha de Kafue apresentam assinaturas de isótopos de hélio que indicam uma conexão direta com o manto terrestre, localizado entre 40 e 160 km abaixo da superfície da Terra”, disse Daly ao portal Metrópoles.

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“Essa conexão fluida é uma evidência de que a falha de Kafue está ativa e, portanto, a Zona de Rift do Sudoeste Africano também está — podendo ser um indício precoce da fragmentação da África subsaariana“, completou o pesquisador.

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O fenômeno é perceptível no leste da ÁfricaEmbora o processo leve milhões de anos, a falha ativa na Zâmbia é um marco para a geologia moderna. Reprodução/Youtube

 

A África pode realmente se dividir?

Sim — mas não no sentido que a pergunta pode sugerir à primeira vista. Segundo os pesquisadores, há chances reais de a África se separar, mas o processo geológico levaria um tempo extraordinariamente longo para acontecer.

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O movimento das placas tectônicas que separam a África ocorre a uma velocidade de cerca de 0,8 centímetro por ano — o que é imperceptível em escala humana, mas geologicamente significativo.

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Para efeito de comparação, o processo que separou a América do Sul da África levou dezenas de milhões de anos. O que os cientistas documentaram na Zâmbia seria um estágio inicial desse tipo de fenômeno.

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Não é a primeira vez que pesquisadores alertam para esse movimento. Um estudo anterior já havia indicado que o rift africano acelera e pode originar um novo oceano. O novo estudo da Zâmbia é mais uma peça nesse quebra-cabeça.

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O que é um rift — e por que ele importa

Para entender a descoberta, vale conhecer o conceito central:

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  • Rift é uma zona onde a crosta terrestre se estica e afina progressivamente
  • Quando o processo avança, pode formar vales profundos, vulcões e terremotos
  • Em escala geológica, rifts evoluem e podem criar novos oceanos e continentes
  • O exemplo mais estudado é o Sistema de Rift da África Oriental, ativo há milhões de anos
  • A Fenda de Kafue representa uma extensão sudoeste desse mesmo sistema

A ligação entre os dois sistemas, confirmada pelo estudo, sugere que o movimento tectônico é mais amplo do que se imaginava.

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O que vem agora para a ciência

Os pesquisadores apontam que a Zâmbia pode não ser um caso isolado. Outras regiões da África podem abrigar falhas geológicas ativas ainda não mapeadas, e novos estudos são esperados para os próximos anos.

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Geólogos monitoram essa mudança há décadas, mas estudos recentes indicam que o ritmo da fenda está se desenrolando mais rapidamente e de forma mais visível do que se previaA divisão do continente africano é um fenômeno natural que moldará a geografia da Terra no futuro distante. Reprodução/Youtube

A técnica usada — análise de isótopos em fontes termais — demonstrou ser eficaz para detectar a profundidade de fraturas geológicas. Isso abre caminho para monitorar outras zonas suspeitas de atividade tectônica no continente.

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O estudo também reforça a importância de compreender os processos internos da Terra que se revelam lentamente na superfície. O que parece uma fonte termal comum pode carregar, em suas bolhas de gás, a assinatura do manto — e a história futura de um continente.