A África pode se dividir? O que a ciência já sabe sobre a grande fenda

Medições de GPS e satélites indicam que o Rift da África Oriental afasta placas tectônicas lentamente e pode, no futuro, abrir espaço para a formação de um novo oceano

O possível nascimento de um sexto oceano reforça uma ideia central da geologia: a superfície da Terra está em permanente transformação.

O possível nascimento de um sexto oceano reforça uma ideia central da geologia: a superfície da Terra está em permanente transformação. | Pixabay

O mapa do mundo que aprendemos na escola não é tão definitivo quanto parece. Sob a superfície da África Oriental, forças geológicas silenciosas trabalham há milhões de anos e, segundo cientistas, podem culminar na formação de um novo oceano.

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Medições de GPS, imagens de satélite e análises geológicas indicam que essa região está se afastando lentamente do restante do continente africano.

O fenômeno ocorre em uma vasta zona de fraturas conhecida como Sistema de Rift da África Oriental, que se estende de Moçambique até o Mar Vermelho.

Uma fratura que atravessa o continente

O sistema de rift funciona como uma cicatriz profunda na crosta terrestre. Ali, duas grandes porções do continente se afastam pouco a pouco: o bloco somali, a leste, e o bloco núbio, a oeste. Esse movimento cria vales extensos, vulcões ativos e terremotos frequentes.

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Os cientistas explicam que as placas tectônicas estão se separando a uma velocidade média de cerca de 0,8 centímetro por ano. Embora pareça pouco, em escala geológica esse ritmo é suficiente para transformar continentes inteiros ao longo do tempo.

Quando a terra vira mar

À medida que a crosta se afina e afunda, abre-se espaço para a entrada de água. Estudos indicam que, no futuro, o vale poderá ser inundado pelas águas do Mar Vermelho e do Golfo de Aden. Se isso acontecer, uma nova linha costeira surgirá no leste da África.

Partes do Quênia, da Tanzânia, da Etiópia e de Moçambique ficariam separadas do restante do continente, formando uma grande massa de terra cercada por um oceano ainda inexistente nos mapas atuais.

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O tempo da geologia não é o tempo humano

Apesar do impacto visual da ideia, os especialistas reforçam que o processo é extremamente lento. A geóloga Cynthia Ebinger, da Universidade de Tulane, estima que a formação completa de um novo oceano pode levar cerca de um milhão de anos.

Em cenários considerados mais favoráveis, esse prazo poderia cair para algo em torno de 500 mil anos. Ainda assim, trata-se de um intervalo muito além da experiência humana direta, o que explica por que essas mudanças passam despercebidas no dia a dia.

Terremotos podem acelerar o processo

Embora o afastamento das placas seja gradual, eventos sísmicos têm potencial para acelerar etapas locais da separação. Terremotos fortes podem abrir fendas, facilitar a infiltração de magma e ampliar a instabilidade da crosta em pontos específicos do rift.

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Isso não significa que um oceano surgirá repentinamente, mas ajuda a explicar por que a região é uma das mais ativas do planeta do ponto de vista tectônico e vulcânico.

Um fenômeno que já aconteceu antes

Para os geólogos, o que ocorre hoje na África Oriental não é inédito na história da Terra. O processo é comparável ao que deu origem ao Oceano Atlântico, formado quando a América do Sul se separou da África há cerca de 180 milhões de anos.

Naquela época, fissuras semelhantes se abriram, foram preenchidas por magma e, com o tempo, acabaram inundadas pelas águas oceânicas. O resultado foi um dos maiores oceanos do planeta.

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O planeta em constante transformação

O possível nascimento de um sexto oceano reforça uma ideia central da geologia: a superfície da Terra está em permanente transformação. Continentes se movem, oceanos se abrem e se fecham, montanhas surgem e desaparecem ao longo de milhões de anos.

Mesmo que essa mudança não altere o mapa durante a nossa existência, ela mostra que o planeta que habitamos hoje é apenas uma fotografia momentânea de um processo muito maior e contínuo.