Não paira dúvidas de que Lula ilustra a condição de maior líder da República brasileira nos períodos em que perdurou a vigência do Estado Democrático de Direito. Dado que foi o responsável por promover a pauta que organizou o establishment enquanto dispositivo na mitigação da discriminação de oportunidades. Durante o seu mandato, foi capaz de fortalecer as bases da economia de mercado, ao mesmo tempo em que inseriu milhares de excluídos no universo do consumo de produtos e serviços.
O ex-chefe do poder executivo federal evidenciou que a pobreza não representa uma chaga intransponível na configuração social, situação presente desde a chegada dos portugueses. Por esses motivos, transformou-se na única figura política preparada para impedir a ascensão do extremismo em solo tupiniquim. Sem Lula, Jair Bolsonaro e asseclas teriam o caminho livre para transformar a agenda da direita belicosa em política de Governo.
Deste modo, não se trata de endeusar Lula ou absolver o Partido dos Trabalhadores (PT) das iniquidades perpetradas outrora, mas de reconhecer que não há caminho alternativo para livrar a nação da calamidade odiosa que a espreita.
Nessa eleição, Lula tem desempenhado o papel digno de um personagem heroico concebido por Stan Lee, uma vez que vem lutando contra a maior instrumentalização do aparato estatal e orçamentário jamais visto em qualquer disputa anterior, além de suportar várias ondas de violência religiosa com viés fundamentalista, típicas de processos inquisitórios medievais e lidar com o vilipêndio despudorado da bandeira e símbolos pátrios.
Nesse contexto, o bolsonarismo apenas externaliza acepções éticas, morais ou de costumes para encobrir a faceta supremacista dos que não suportam dividir espaço com os diferentes e acreditam que a desigualdade material e a restrição educacional são partes do inexorável darwinismo natural que se aplica à hierarquização lastreada na superioridade racial e cultural.
Portanto, Lula não possui o direito de perder o escrutínio que será finalizado no dia 30 de outubro, sob pena de mergulhar o Brasil nas profundezas degeneradas desse mar obscurantista e profano. A intolerância, rancor, perversidade e descompaixão traduzem sentimentos que não podem ser premiados pelo regime de sufrágio popular, pois se o orçamento secreto exprime a vergonhosa dilapidação de recursos pertencentes ao erário da união, o reacionarismo obtuso e colérico com delineamento psicótico compromete e aniquila o ordenamento civilizatório.
Venho de uma geração que formou referências políticas ao som de bandas, tais como: Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Ira, RPM, Nenhum de Nós, Camisa de Vênus, As Mercenárias, Zero, entre tantas outras, que propiciaram muita diversão, mas também abriram os intelectos pulsantes aos questionamentos vanguardistas respaldados nas necessidades em promover a solidariedade como forma de edificar laços vigorosos de fraternidade comum. Hoje, infelizmente observo indivíduos que, mesmo tendo vivenciado esses tempos, viraram as costas ao sopro que engrandece e nutre a alma.
Em síntese, votar em Lula no próximo domingo, simboliza a preservação da nobreza existente no âmago de cada um, integra o resgate da espiritualidade corrompida pelo fanatismo militante e denota a distinção justa aos que se dedicaram à superação de 21 anos de excepcionalidade. Portanto, nunca antes na história deste país se fez tão necessário que os bons prenúncios superem os maus agouros.
Nilton C. Tristão
Cientista Político
